O Banco de Portugal (BdP) manteve inalterada a projeção de crescimento de 1,8% este ano e 1,6% no próximo, isto apesar de antever mais inflação e o emprego a crescer de forma menos expressiva do que havia projetado em março. Além disso, o banco central melhorou ligeiramente a projeção para o saldo orçamental, embora mantendo a expectativa de défice este ano e nos próximos.
No Boletim Económico de junho, divulgado esta segunda-feira, o BdP mantém a previsão relativa ao crescimento no perfil de projeções, ou seja, 1,8% este ano, 1,6% no próximo e um retorno aos 1,8% em 2028. É, portanto, um cenário semelhante ao projetado em março, no mais recente exercício de previsões macroeconómicas do banco central, isto apesar de algumas diferenças nos detalhes.
A mais evidente prende-se com a inflação, que foi revista em alta de 2,8% para 3,1%, muito à custa do choque energético resultante da guerra iniciada pelos EUA e Israel contra o Irão. Em sentido inverso, a inflação subjacente, que exclui as categorias da energia e bens alimentares, foi revista em baixa de 2,5% para 2,4% este ano.
Por outro lado, o emprego cresce menos do que o BdP apontava em março, com o indicador a subir 1% no exercício atualizado face aos 1,3% previstos no Boletim anterior. Já a taxa de desemprego mantém-se em 5,9% este ano, mas a projeção para 2027 foi revista marginalmente em alta para 6%.
Sendo o Boletim de verão, houve também lugar a uma atualização das projeções orçamentais. O BdP continua a antever um défice este ano, tal como no exercício de projeções divulgado no final de 2025, mas melhorou ligeiramente o saldo.
Portugal deve então fechar o ano com um saldo negativo de 0,2% do PIB, ou seja, uma melhoria em relação aos 0,4% previstos anteriormente. Para os anos seguintes, a tendência é semelhante: em vez de um défice de 0,9% em 2027 e de 1% em 2028, a expectativa passa agora por dois anos consecutivos de um saldo negativo de 0,5%.
Economia está “resiliente”
Apesar do resultado negativo, o governador não se mostra preocupado. Álvaro Santos Pereira reconheceu que a despesa líquida, o indicador chave para as novas regras orçamentais europeias, deverá este ano crescer acima do referencial de Bruxelas, mas salientou que, no quadro mais amplo, Portugal compara de forma positiva com o resto do bloco.
“Estamos muito perto do equilíbrio orçamental, estamos numa situação orçamental bastante melhor que a maior parte dos países europeus e, ao nível da dívida, tem havido uma redução muito significativa que achamos que vai continuar”, projetou o governador. Quanto à possibilidade de este défice previsto não se materializar, Santos Pereira considerou que “há sempre alguma margem” em situações tão próximas do equilíbrio.
“Tudo vai depender do Governo e da economia”, resumiu.
Ainda assim, o governador não quer que os portugueses se tornem “complacentes ou relaxem no esforço de desendividamento”, até porque a estrutura demográfica agrava a pressão no futuro, havendo o risco de uma inversão da tendência de queda na próxima década. Simultaneamente, o atual nível é “ainda demasiado elevado”, o que constitui uma fragilidade para o desempenho económico português.
O Boletim antecipa uma redução do indicador para 85,7% este ano e para 82,5% no próximo.
Apesar disso, “a economia continua bastante resiliente aos choques”, afirmou. O ponto de mais óbvio risco continua a ser a inflação, explicou, mas um misto entre a ação do Banco Central Europeu (BCE), ao subir já juros na semana anterior, e a situação interna portuguesa conferem alguma segurança.
Precisamente de olho na dinâmica de preços e na incerteza que a rodeia, o BdP traçou um cenário adverso assente nos pressupostos semelhantes ao traçado pelo BCE na semana anterior, ou seja, de perturbações mais prolongadas no Médio Oriente e subsequente prolongamento e magnitude do choque energético. Ainda assim, o crescimento mantém-se relativamente estável, caindo apenas 0,2 pontos percentuais (pp) para 1,6% este ano.