Nas cerimónias do Dia de Portugal, é comum ver figuras de Estado com um semblante de ateus forçados a assistir a uma cerimónia religiosa, numa atitude de indiferença e cinismo. O que explica que, ano após ano, aquela que deveria ser uma ocasião de exaltação patriótica e de júbilo nacional, não passe de um momento de discursos tépidos e de fretes protocolares embaraçosos?

Claro que esta simples pergunta é suficiente para atiçar os espíritos mais cosmopolitas e desempoeirados. E dir-me-ão que este feriado, no pós-25 de Abril, não deve servir para despertar sentimentos de lealdade à pátria e de coesão identitária. E a direita mais frouxa não hesitará em concordar com esta visão moderna da data, pois tem pouco jeito para alimentar a sede de mitos, para quebrar o espírito dos tempos, para estimular o imaginário popular.

Convencionou-se que datas como esta sejam dominadas por uma sobriedade chata, desfiles militares modestos e, nos piores anos, por exercícios de culpabilização colectiva.

Nesse sentido, António José Seguro serve perfeitamente, com rara mestria, a função de entorpecimento colectivo e de desconexão dos cidadãos com a política. O nosso Presidente é a personificação da obsolescência do regime e, por isso mesmo, merece uma menção especial. Ainda assim, a verdade é que todo o ambiente constrangedor, com uma energia quase fúnebre, explica-se por motivos intrínsecos ao regime. São esses motivos mais permanentes que têm impedido que o Dia de Portugal seja celebrado em condições dignas e mobilizadoras.

Um primeiro motivo é a dificuldade de criação de mitos entre as alas mais conservadoras e nacionalistas. A neutralidade da direita na política contemporânea portuguesa tende a furtar-se à promoção de um ideal claro de “vida boa”, de valores partilhados e de imortalização de heróis nacionais. Isso dificulta a construção de uma narrativa patriótica que mobilize emocionalmente os cidadãos.

É por isso que alguma da direita portuguesa é chamada tantas vezes pejorativamente “direitinha”, devido a essa postura tímida, sem garra, obcecada com o excesso de rigor, mais académica do que apaixonada, que acredita que será mais respeitada se for pouco enérgica e pouco afirmativa. Isso ficou evidente há poucos dias, no desaproveitamento do centenário do 28 de Maio. E porquê? Porque a data evoca o grande fracasso da esquerda republicana frente a um país de diferentes sensibilidades que não se deixou terraplanar pela repressão tirânica de Afonso Costa. O país não se vergou ao fanatismo anticlerical dos “democráticos” que perseguiam violentamente conservadores, clérigos, monárquicos, anarquistas e nacionalistas. Além disso, a data é desconfortável para uma visão da história que tende a apresentar a 1ª República como um projecto essencialmente emancipador interrompido por forças reaccionárias.

Um segundo motivo, mais geral, é a fragmentação da consciência moral. A sociedade portuguesa, como muitas outras na modernidade, enfrenta uma desintegração dos valores tradicionais que antes uniam as pessoas em torno da ideia de nação. Nestas condições, mobilizar a população de forma significativa e duradoura é um desafio titânico. Esta fragmentação é ainda mais inevitável perante a ausência de grandes feitos recentes. Temos uma postura servil que é acentuada pela longa dependência de fundos europeus, pela percepção de irrelevância internacional e por uma governação técnico-administrativa que não mostra empatia pelo povo nem apego às suas origens.

O terceiro motivo é a militância insidiosa da esquerda na cultura e no discurso político e académico. A esquerda sempre foi hábil na sua estratégia de ocupar, transformar o espaço público e moldar mentalidades. Na sua missão de esvaziamento simbólico e de dessacralização de instituições, datas, monumentos e figuras históricas, com toda a desinibição que lhe é própria, avançou agora para a tentativa de captura do 10 de Junho, usurpando a data em favor da sua agenda. E a sua agenda assenta na desmoralização, na flagelação contra a identidade nacional e na perseguição.

Por um lado, vão policiando o discurso patriota, por outro lado, colonizam o dia com manifestações, cunhando o Dia de Portugal como o Dia da Luta Antirracista, e dedicando-o às alegadas “vítimas do racismo e da xenofobia”. O que fazem é conotar qualquer apologia à memória histórica com o discurso de ódio, sugerindo que o perigo está sempre à espreita quando o povo sente sentimentos patriotas. Claro que a extrema esquerda avança com total impunidade, sobretudo agora que conta com um Ministro da Administração Interna empenhado em surfar a onda da perseguição ao pensamento dissidente.

Esta instrumentalização estafada do fantasma do racismo é especialmente absurda quando as mesmas pessoas desdramatizam os vários episódios de extrema violência que estão a irromper em vários pontos da Europa. Além da recente batalha campal que testemunhámos em Paris, depois da vitória do PSG, e que resultou em destruição e em centenas de detenções, importa lembrar os recentes esfaqueamentos de Henry Novak, que morreu depois de ser algemado por acusação de racismo, e de Stephen Ogilvie, na Irlanda do Norte, que ficou gravemente ferido e que só se livrou de ser degolado por um imigrante sudanês graças à rápida intervenção de populares que neutralizaram o agressor.

Mas onde estão as vozes patriotas na hora de denunciar estas contradições e a afronta woke ao 10 de Junho? Mal se ouvem, pois a direita ainda tem muito medo de travar a batalha cultural e, nos dias que correm, o fervor parece ter pouca lenha por onde arder. Nada é sagrado, nada está protegido, tudo é permitido à passagem do wokismo. As nações não morrem apenas pela força dos seus adversários; morrem também pela fadiga daqueles que não sabem nem querem preservar a sua herança.