No momento em que escrevo estas linhas aguardamos a confirmação da assinatura de um acordo de Cessar-Fogo entre os Estados Unidos e o Irão. Se esse acordo vier a ser efectivamente assinado na próxima sexta-feira, como está anunciado, será uma boa notícia para todo o Mundo, porque significa uma verdadeira redução das tensões político-militares naquela região e a criação de condições básicas para que seja reaberta a circulação marítima no Estreito de Ormuz, com consequente liberalização da circulação de produtos que essenciais para o funcionamento de diversos sectores económicos à escala global, e designadamente de petróleo e produtos refinados, de gás natural e de fertilizantes.
Regressaremos, por isso, a um quadro de alguma normalidade, com algumas variações relativas à situação vigente em finais de 2025. A questão mais interessante será perceber o que verdadeiramente terá mudado, e o que ficará próximo do cenário anterior.
No Irão, o regime dos Ayatollahs continuará no poder, sustentado na Guarda Revolucionária, e o compromisso assumido pelos EUA de não interferir nos assuntos internos do país levará a que os sonhos de mudança que no início do ano geraram grandes manifestações populares, alimentadas pelas promessas de apoio que vinham do Ocidente, ficarão adiados por algum tempo. A retoma dos fornecimentos de petróleo à China e outros países gerará as receitas que, juntamente com alguns fundos actualmente congelados que serão libertados, financiarão as reparações de infraestruturas civis destruídas pelos bombardeamentos e a gradual retoma da economia. Mas a desistência (definitiva ou temporária?) do programa nuclear ficou apenas enunciada e agendada para segunda ronda negocial, existido a expectativa de que será criado um mecanismo para verificação do cumprimento das condições anunciadas como estando no acordo, mas que nem são ainda perfeitamente conhecidas nem o Irão confirmou até agora.
Para o mundo Ocidental em geral (incluindo o Japão e a Austrália), a garantia da liberdade de circulação comercial no estreito sem cobrança de tarifas de portagem e a normalização do tráfego de produtos energéticos com origem no Golfo é um enorme alívio. Irá aliviar as tensões que se sentem já no tocante ao abastecimento desses produtos (se bem que a recuperação dos fornecimentos de Gás Natural do Qatar possa levar mais algum tempo). É natural que os cenários de racionamento ou alta de preços possam ser afastados, que a tendência de crescimento da inflação se possa inverter, e que o espectro da subida de juros e consequente redução do investimento e aumento do desemprego possam desaparecer rapidamente.
Mas na minha opinião o acordo anunciado continua a alimentar dúvidas relativamente à sua solidez e sustentabilidade a longo prazo. Em primeiro lugar, parece-me visível que a administração americana estava muito pressionada pela deterioração das sondagens relativas às próximas eleições para o Congresso, e por razões legais domésticas não podia continuar a lançar ameaças de acção militar (e por isso as sucessivas prorrogações do cessar-fogo unilateralmente declarado, mesmo perante a falta de avanço nas negociações), e por isso aceitou o que conseguiu, não o que queria. E aceitou incluir o Líbano entre os territórios onde o cessar-fogo será aplicado, o que de modo algum pode satisfazer o governo de Israel, o que aumenta a incerteza.
O acordo é frágil, mas mesmo assim é bem vindo. Queira Deus que consiga manter-se por muito tempo.