Num cenário geopolítico instável, a reação mais imediata dos empresários é recuar, suspendendo decisões, operações e investimentos em mercados considerados de risco. É, naturalmente, um comportamento compreensível, mas nem sempre é a melhor estratégia para os negócios. O Médio Oriente, hoje marcado por incerteza e tensão, está a ser alvo de hesitação, mas será que dar um passo atrás nesta altura é a melhor solução, ou estará a prejudicar objetivos de longo prazo?

Os sinais de abrandamento são evidentes, principalmente no Catar. Novas reuniões deixaram de ser agendadas, os tempos de resposta aumentaram e os encontros presenciais estão pendentes. Neste contexto, a gestão passou para um modelo remoto, o que exige maior capacidade de coordenação e adaptação. Também os investimentos estratégicos estão a ser reavaliados e a prudência financeira tornou-se ainda mais fundamental.

Eventos como o Qatar Economic Forum, uma conferência que reúne líderes, investidores e decisores de referência a nível internacional, foram cancelados, o que reflete a instabilidade do país. Ficam, assim, em atraso a partilha de tendências e excelentes oportunidades de networking, o que diminui o ritmo económico de um mercado que provava ter um enorme potencial.

Muitas empresas portuguesas vêem-se obrigadas a abandonar esta região, mas o que acontece aos negócios que se mantêm? Permanecer é muito mais do que resistir, é reforçar um posicionamento. Os empresários que continuam a acreditar no potencial destas zonas, mesmo perante situações adversas, tendem a reforçar relações, credibilidade e prioridade quando o mercado recuperar a dinâmica habitual. Num contexto em que a concorrência recua, quem persiste torna-se mais visível, mais relevante e, muitas vezes, indispensável.

No Médio Oriente, atualmente, a confiança constrói-se com consistência, porque uma parceria não é criada apenas por momentos de crescimento, também exige capacidade de vingar mesmo em contextos desafiantes. Aliás, é precisamente nestes contextos que parceiros estratégicos fazem a diferença. A região do Golfo continua a ter uma ambição estrutural, o que, por si só, já se revela promissor. Fatores como diversificação económica, investimento em tecnologia, cidades inteligentes e sustentabilidade não desaparecem, só estão a ser reconfigurados.

A Google, por exemplo, mesmo após ameaças de destruição no Médio Oriente, continua a apostar nesta região, mantendo o seu posicionamento. Enquanto a instabilidade se espera temporária, os fundamentos económicos e os planos de desenvolvimento mantêm-se estruturais, um argumento que tem vindo a ser bastante considerado. Os grandes projetos de digitalização, sustentabilidade e cidades inteligentes que estão a transformar a região não desapareceram, apenas abrandaram o seu ritmo.

Contudo, é evidente que os riscos não devem ser ignorados, porque manter a operação numa região instável exige adaptação, desde maior flexibilidade de horários de trabalho até à monitorização constante de instituições financeiras e cadeias de pagamento. E é esta versatilidade que distingue as empresas resilientes e os empresários que equilibram precauções de curto prazo com objetivos e visão a longo prazo.

Um processo de internacionalização não pode estar apenas preparado para evolução positiva e crescimento, devendo considerar desafios. Desistir de um mercado é abdicar de relações, contratos, possíveis lucros e de um posicionamento conquistado. É, ainda, dar espaço para a concorrência se destacar num determinado setor. Por isso, no meio da incerteza, a consistência pode ser, sem dúvida, o fator diferenciador e a maior vantagem competitiva das empresas portuguesas no Médio Oriente.