1. A China deixou de ser conhecida como a “Fábrica do Mundo” e passou a ser “temida” no Ocidente pela sua rápida incursão e domínio na grande maioria das áreas de tecnologias avançadas ou críticas, como se referiu, aqui, no último artigo de opinião, com base em estudo independente, elaborado na Austrália pela ASPI, onde, entre 74 tecnologias críticas analisadas, a China domina 66 e os EUA as restantes 8, mas a serem acossados em três, entre elas, a IA.

Em outros domínios, que se ligam com as tecnologias avançadas, ou melhor dito, a montante, por exemplo, na energia, a China disfruta, também, de uma posição esmagadora no Mundo.

2. Este ganho de posições mundiais da China continua a assentar num trabalho técnico-científico persistente de antecipação, visão e estratégia de longo prazo, elaborado e ajustado dinamicamente ao evoluir do enquadramento mundial (social, cultural, tecnocientífico, económico e financeiro, político) e de inter-relacionamento entre sectores, países e espaços geopolíticos, implementando, depois, no País, as conclusões e orientações derivadas, ou seja, a China não se limita a fazer estudos, como frequentemente acontece no Ocidente, mas, uma vez bem “esmiuçados e calendarizados”, tenta concretizá-los.

Não quer dizer que o sucesso obtido seja de 100%. Conhecemos bem a situação de insucesso, por exemplo, a crise no domínio do imobiliário, ainda em fase de reestruturação complexa e difícil que já leva uns quantos anos de ajustamentos.

O pensamento de longo prazo é uma característica da China, reconhecida por muitos peritos e bem expresso, no dito popular, “a paciência de chinês”.

Energia instalada – Capacidade de produção global

3. Em finais de Maio de 2026, a capacidade instalada na geração de energia na China atingiu 4.010 GW.

Este número impressiona, quando comparado, porque se torna arrasador. Na realidade, a capacidade instalada na China equivale, nesta mesma data, à dos EUA adicionada da União Europeia, Índia, Japão e Rússia.

Quando li, fiquei atónito, pela disparidade, tal era a distância. Fui mesmo confirmar junto da Agência Internacional de Energia (AIE).

Também deduzi que os planos energéticos têm vindo a cumprir as metas definidas, tanto mais que, no momento presente, 62% da energia gerada é energia limpa, ou seja, energia renovável intermitente (eólica e solar) mais nuclear, quando, em 2010, a energia limpa representava apenas 25%.

Se acrescentarmos o equipamento investido de origem chinesa, não importado, como sucede na Europa e mesmo nos EUA, ficamos com a ideia de como tudo isto reverte em função do robustecimento do tecido produtivo da República da China, um excelente ponto de partida para competir nos mercados externos, que se têm tornado dependentes dos fabricos chineses destes equipamentos de tecnologia avançada. Na realidade, equipamentos para as energias solar e eólica, dificilmente não são importados da China (tecnologia e fabrico). É isso o que “gritam” a Europa e os EUA: é preciso barrar o caminho.  Mas, em vez de pensarem e avançarem na redução do fosso, seriamente, avançam, com taxas aduaneiras, que só complicam e nada resolvem, tornando-se ainda competitivos. E porque não encontrar formas de colaboração?!

4. Centrando-nos na energia e antecipando a situação esperada 2030/2035, a tendência de desvios futuros entre China e aquele conjunto de países ou, sendo mais exacto, entre a China e o conjunto EUA mais União Europeia, porque se dispõe de informação mais recente, a situação caminha, não no sentido da melhoria, mas no reforço de uma maior clivagem, quer pelo número de novos reactores nucleares a instalar na China até 2035 (cerca de 150, tendo 36 em construção e 16 aprovados para arranque), quer pela capacidade a instalar nas eólicas e fotovoltaicas.

Ora, tudo se conjuga para que a China esteja a desenhar um ambiente de grande competição nos domínios da Inteligência Artificial, em termos de cluster integrado (conjugando energia, transição energética e base industrial), pois, como se sabe, desenvolver a IA requer elevado consumo de energia eléctrica e também de água e uma base industrial potente e articulada. Tanto assim é, que as TECS americanas andam todas a negociar fornecimentos de electricidade, a longo prazo, muitas vezes em parcerias com startups ou mesmo investindo em pequenos reactores (SMRs) e procurando com o apoio do Governo americano sonegar as produções de elevada tecnicidade ao mercado (semicondutores, chips), com a finalidade de retardar a China na progressão da IA.

Esquecem que a IA está a ser a grande aposta chinesa e também de alguns países asiáticos como a Coreia do Sul, Japão, Singapura e ainda, embora em fase atrasada, do Vietname, que ultrapassou os 100 milhões de habitantes há pouco tempo e se encontra em franco processo de desenvolvimento.

A China, com esta nova frente de dinamismo, vai arrastar estes outros países asiáticos, nesta mesma linha, porque vai reunir as condições para alcançar os EUA em áreas/produtos em que está atrasada, no tempo, como chips e semicondutores de alta tecnologia.

A grande vantagem chinesa situa-se no imenso capital humano. Não nos podemos esquecer que é a China quem forma anualmente mais engenheiros no Mundo. Por outro lado, regista-se um retorno à China de quadros dos EUA, altamente especializados e com vasta experiência nesta área, devido às tensões sociais e políticas, criadas por Trump com o problema das imigrações, que a China bem agradece.

Por outro lado, a sua estrutura industrial, em que se inclui a fileira das terras raras e a capacidade rápida de padronizar a industrialização, é um outro vector de competição, quer em prazos quer em custos de fabrico, onde a China é líder.

Tendo como paradigma a energia nuclear temos a China a padronizar o seu fabrico.  Enquanto o Ocidente/Europa enfrenta problemas de competências técnicas, porque esteve muito tempo sem produzir, a China organizou-se com sucesso para produzir vários reactores nucleares em simultâneo, designadamente os de 3ª geração e só não aposta, nos de 4ª. geração, porque ainda decorrem os ensaios de produção padronizada, uma vez que a tecnologia de fabrico já domina.

Neste contexto, avizinha-se uma competição muito agressiva no campo da Inteligência Artificial, vista como um todo, entre a China e os EUA, onde a distância está a encurtar, tanto mais que a IA não se reduz a algoritmos, mas a toda a base industrial de suporte à IA – as infraestruturas de produção – em que a China já se encontra bem organizada.

Preanuncia-se, assim, desafios significativos entre os dois países, até meados da próxima década, o que, para muitos analistas, não serão benéficos ao Ocidente e ao país líder – os EUA.

Afirma-se mesmo que estes desafios se encaixam no processo de perda de Hegemonia a afectar o Ocidente, para muitos, com a data ícone 2035 como marca de perda. Para a China, o ano de 2049 é a meta, os 100 anos da fundação da República Popular da China.