Calouste Sarkis Gulbenkian desconhecia ainda a sua veia de colecionador quando, aos 14 anos, num bazar em Istambul, comprou moedas gregas antigas com as cinquenta piastras que o pai lhe dera, como prémio pelos bons resultados académicos. Sabe-se que, aos 21 anos, Gulbenkian já vendia moedas antigas ao British Museum. Mas não foi por estas singelas transações que ficou conhecido como tendo um fino sentido para os negócios. O seu nome impôs-se como financeiro, conselheiro económico, diplomata, entre outros, mas também como colecionador de arte.
Ao longo de 50 anos, Gulbenkian comprou sempre aquilo de que gostava, ainda que o seu gosto tenha sido meticulosamente cultivado até ao fim da vida. Estudava, via exposições, aconselhava-se com os melhores e, acima de tudo, respeitava a sua intuição. Diversas peças por si escolhidas só mais tarde se confirmaram obras-primas. Falências, revoluções, guerras, coleções dispersas, Gulbenkian soube gerir todas as crises a favor da sua eclética e preciosa coleção. Simbiose entre Oriente e Ocidente, a coleção de Calouste Gulbenkian não só reflete as suas origens, atribuindo um lugar importante à arte islâmica, como também reflete a sua cultura cosmopolita.
A paixão pela arte
Mas recuemos a 1869, ano em que nasceu Gulbenkian, filho de uma família de abastados comerciantes, em Istambul. Estudou no King’s College de Londres e diplomou-se em Engenharia em 1887. Desempenhou um papel importante na organização do grupo Royal Dutch-Shell e serviu de elo de ligação entre as indústrias petrolíferas americanas e russas. No fim do século XIX, a indústria do petróleo estava a dar os primeiros passos e foi Gulbenkian quem deu o primeiro impulso para o seu desenvolvimento na região do Golfo Pérsico.
O magnata, conhecido como “Sr. 5%”, precisamente pela sua participação na indústria petrolífera do Médio Oriente, também ocupou o cargo de diplomata, nomeado pelo governo Otomano, Conselheiro Económico nas Embaixadas de Londres e Paris, acumulando fortuna e uma notável coleção de mais de seis mil obras de arte. Gulbenkian, apesar de ocupado com os seus negócios, nunca deixou a sua grande paixão para segundo plano. O gosto pela arte. Aperfeiçoou os seus conhecimentos, através de livros e catálogos, visitou museus e exposições durante as suas viagens e, em 1903, chegou mesmo a frequentar cursos de história da arte, no Louvre. Além disso, soube sempre rodear-se de conselheiros. Desde negociantes de arte, como o britânico Joseph Duveen, a estudiosos vários, nomeadamente o egiptólogo Howard Carter, Kenneth Clark, diretor da National Gallery, em Londres, ou o advogado britânico Cyrill Radcliffe.
Aliás, foi através desta rede de especialistas que realizou as suas transações, em leilões ou diretamente com os proprietários, caso do Barão Rothschild. Sem esquecer outro episódio que lhe deu acesso a obras-primas do Museu Hermitage. A Rússia tornara-se soviética e precisava de encher os cofres. Para esse efeito, colocou à venda, clandestinamente, centenas de peças pertencentes aos seus museus.
O que fez Gulbenkian? Estudou os catálogos do Hermitage e contou com o suporte técnico e parecer de diversos especialistas na análise dos lotes de peças, bem como na sua avaliação e seleção. O historiador da arte Schmidt-Degener e os joalheiros Marcel e André Aucoc estiveram, desde a primeira hora, envolvidos em toda a operação. Foi assim que obras de Rembrandt e Rubens, entre outras, entraram na coleção.
Gulbenkian chegou a Lisboa em abril de 1942 e instalou-se no Hotel Aviz, sua casa durante 13 anos. Quando faleceu, na capital portuguesa, em 1955, era o homem mais rico do mundo. Sim, mas também filantropo. Apoiou um vasto leque de causas sociais, culturais e humanitárias. No seu testamento, escrito em 1953, Gulbenkian manifestou o desejo de criar em Portugal uma fundação, dotada de “fins de caridade, artísticos, educativos e científicos”. Os estatutos foram apresentados em 1956 e, em 1969, nascia o Museu. Para honrar o desejo de um “cidadão do mundo” de interesses ecléticos, que deixou a sua vasta fortuna para o “aperfeiçoamento da humanidade”, à Fundação que leva o seu nome e que, desde a sua instituição, tem marcado a paisagem cultural portuguesa de forma indelével.
O Museu Gulbenkian
Momento alto nos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian é a reabertura do Museu, casa de uma coleção que cobre um arco temporal de 5 mil anos. O anfitrião da visita é Xavier Salomon, o italiano nascido em Roma, que estudou história da arte no Courtauld Institute of Art, em Londres. Os olhos brilham quando nos convida a iniciar esta viagem no tempo. Este foi, precisamente, o maior desafio que o atual diretor do Museu enfrentou. Mas não esteve só nesta corrida contra o tempo, fez questão de sublinhar. “O gesto de maior humildade” é dos curadores e arquitetos, que tudo fizeram para “respeitar o espírito original do Museu. Todos os nossos colaboradores foram incríveis.” Trabalho de equipa, salientou por diversas vezes. Aqui se enaltece a trilogia dialogante entre edifício, coleção e natureza envolvente, que torna este espaço “único no mundo.” A delicada iluminação, o granito e o lioz, sem esquecer a madeira, tudo recuperou o seu lugar no design da exposição. “Não há paredes pintadas”, realça a arquiteta Teresa Nunes da Ponte, antes de chamar a atenção para as transparências que acentuam o diálogo entre o interior e o exterior, esse extraordinário jardim esculpido pela arquiteta paisagista Paula Côrte-Real.
E se a bela “Diana” de Jean-Antoine Houdon recebia os visitantes à entrada da escadaria da casa parisiense de Gulbenkian, aqui, o seu papel não é desafiar-nos. Antes fazer-nos parar, para olhar em volta, apreciar a luz natural que inunda o espaço que lhe é dedicado. De novo a transparência, que contrasta com o intimismo das salas sem luz natural, onde o olhar tem de se aproximar de cada uma das peças. Antigo Egito. Mesopotâmia, Grécia e Roma. Mundo Islâmico e Arménia(s). China e Japão. Eis o primeiro circuito. Algo mudou? Sim. A tecnologia não está visível, mas está lá, para que o olhar do visitante pouse nos objetos sem distrações. Ou talvez não seja bem assim. Há frestas intencionais que oferecem vislumbres do que ainda não vimos. A arquitetura interfere para suavizar a circulação pelas salas. Capta a retina. Convida-nos a novos relances. A pausar. A fruir.
“Todos nós, curadores, diretores, pensamos que temos sempre melhores ideias e mudamos as coisas. Mas, muitas vezes, as ideias originais são as melhores”, diz Xavier Salomon. “Este edifício é uma obra-prima da arquitetura e nós estamos aqui para preservar não só as masterpieces da coleção, mas também esta outra obra-prima”, o edifício erguido em 1969. “Tal como preservamos testemunhos da Antiguidade ou da Renascença”, afirma Salomon, cujo percurso profissional passou pelo Metropolitan Museum of Art, British Museum e National Gallery, assim como pela direção da The Frick Collection, de Nova Iorque.
O espaço finito destas páginas não permite abarcar os detalhes das salas dedicadas à Europa, do século XII ao século XX. Do mobiliário à pintura, das tapeçarias aos livros impressos, da ourivesaria francesa – “nem Versalhes tem uma coleção tão relevante como esta”, refere Salomon – aos impressionistas. Inglório? Sim, sem dúvida. Mas um novo vislumbre, desta feita do “Retrato de Helena Fourment”, de Rubens, chama pelos visitantes. Ou o núcleo que exibe as melhores pinturas de Francesco Guardi existentes na coleção. Mais um recanto, novo momento de pausa. “Queremos que os visitantes portugueses voltem, desfrutem do Museu. Podem vir apenas para fruir da arte egípcia ou de Lalique.” A prodigiosa imaginação do artista francês, a quem Gulbenkian comprou diretamente mais de duas centenas de obras, ganha novo esplendor na companhia de duas composições de Sir Edward Burne-Jones. “Há muitas razões para voltar muitas vezes.”
O que podemos esperar em 2027? “Exposições, novas publicações, talks, que exploram diferentes vertentes da coleção”, diz Xavier Salomon ao JE. E partilha de informação. Para complementar a informação existente em sala, o público poderá saber mais através da app desenvolvida pela Bloomberg Connects. Ligar o Museu ao presente também passa pela tecnologia. Seja para informar, seja para divulgar. Para falar com novos públicos e seduzi-los para uma Coleção cosmopolita, como o seu fundador. Que ilustra como as influências viajam de um lugar para o outro e nos devolve, amiúde, o olhar do Outro. Basta estarmos disponíveis para a descoberta.
| 70 anos de Fundação Gulbenkian A Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, celebra o seu aniversário a 18 de julho, com uma programação especial que se estende até dezembro.
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“Only the best is good enough for me” A frase, claro, só poderia ser de Calouste Gulbenkian. E resume a essência de uma coleção que cobre um arco temporal de cinco mil anos, constituída por cerca de 6.440 obras, adquiridas ao longo da vida. O Museu Gulbenkian, que agora se revela ao público – “De novo. Como novo” – extrai o melhor do projeto original de Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy Jervis d’Athouguia, pensado para os públicos poderem fluir livremente entre auditórios e salas de exposições. Uma das maiores ambições do projeto de renovação consistiu em repor a harmonia entre a arquitetura, a Coleção e a paisagem. Na Galeria da Arménia e do Mundo Islâmico, por exemplo, promoveu-se uma maior abertura das janelas para o exterior, reforçando o diálogo entre os azulejos e tapetes e a flora do jardim envolvente. O gabinete de numismática, junto à galeria da Grécia, Roma e Mesopotâmia, outrora um espaço interdito, serve agora de montra a esta grande paixão de Calouste Gulbenkian. O seu interesse pelo luxo das elites do século XVIII, que rivaliza com exemplares de mobiliário, têxteis, prata e bronzes franceses do Século da Luzes, é ilustrado por delicadas ‘bonbonnières’, caixas para rapé e estojos para lacre. Originalmente exposta na casa de Calouste Gulbenkian, em Paris, esta coleção poderá ser novamente vista na exposição permanente. Assim como um para-sol veneziano, peça única na Coleção. Apresentado pela primeira vez ao público na inauguração do Museu, em 1969, este objeto, que ainda recentemente esteve na companhia de obras de Canaletto e Guardi, na exposição “Veneza em Festa”, também regressa à exposição permanente. |