As quatro peças anteriores descreveram um método operado a céu aberto: coage-se, compra-se, contorna-se. Perante rivais à altura, contudo, a mecânica altera a sua natureza. A coerção cede lugar à dissimulação. Contra quem dispõe de capacidade de retorsão, não se anuncia o golpe; encena-se o seu oposto. E esta encenação desdobra-se em duas frentes, pois existem dois rivais sistémicos, atacados em vetores opostos: um de frente, outro de flanco.
A China é o adversário que os EUA enfrentam frontalmente, por ser a única potência que disputa a totalidade do tabuleiro. Mesmo aqui a franqueza é um artifício. A deslocação de Washington a Pequim, este ano, foi lida como distensão. Não o foi. Foi o reconhecimento de que a China padece de uma vulnerabilidade estrutural que a torna vencível sem guerra cinética: não é uma economia holística. Transforma o que importa e importa o que não possui, energia, géneros, minérios críticos. Depende de rotas que não controla, a tese da segunda coluna. Os EUA não foram a Pequim para vencer, mas para estancar a perda de terreno enquanto apertam, nó a nó, os cordões umbilicais de que a China depende. A frontalidade é o disfarce; o estrangulamento logístico é o método.
Há, todavia, um elemento que a leitura corrente omite: o próprio estado de indefinição da guerra com o Irão é funcional a este desígnio. O memorando de Versalhes não colapsou nem venceu; entrou num limbo em que ambos os lados escalam os ataques e o discurso sem romper o essencial. Em cada capital há uma facção a segurar, por razões distintas, o prumo: em Teerão, os moderados; em Washington, a ala MAGA de Vance. Contra eles, a Guarda Islâmica de um lado e ala conservadora securitária e pró-Israel do outro empurram, também por motivos diametralmente opostos, para a força. Esta paralisia, que aparenta fraqueza, produz um efeito cirúrgico: mantém o Golfo instável mas fluído, repondo o petróleo iraniano no mercado e comprimindo o preço do crude. Foi neste hiato que a verdadeira prioridade se revelou. O nuclear e os mísseis, apresentados como casus belli, provaram-se secundários. O que os atos americanos protegeram, sem exceção, foi o controlo da rota. A segurança era o pretexto; a geografia era o fim.
E o preço deprimido do crude, garantido por este interregno, é ele próprio a arma apontada a Moscovo. A Rússia é o rival atacado de lado, o mais dissimulado de todos. À superfície, Washington trata-a com deferência ensaiada, fala de entendimento, e Trump preferiria cooptá-la a combatê-la, vendo nela uma potência conservadora com afinidade ideológica e, na sua acepção própria, civilizacional. Mas a realidade impõe-se por baixo da encenação. A Rússia é rival nuclear, obstáculo em todos os teatros e, crescentemente, um braço energético da China, que lhe sustenta o esforço de guerra absorvendo os hidrocarbonetos que o Ocidente recusa. Ao repor o petróleo iraniano e venezuelano no mercado e ao deprimir o preço mundial, Washington asfixia quem vive da exportação de energia cara, sem decretar uma única sanção nova. Com a China, o golpe é frontal; com a Rússia, é de cernelha: sorri-se de frente e ataca-se de flanco, no Cáucaso, na Ásia Central e, decisivamente, na cotação do barril.
A soma destes dois tratamentos desarticula o bloco que pretendia contrapor-se à hegemonia americana. Os BRICS foram desenhados como alternativa à ordem liberal e desmoronaram-se sem necessidade de combate direto, pois assentavam numa ficção: a de que os rivais dos EUA eram, por inerência, aliados entre si. Não o eram. A China anseia pelas rotas que Washington controla; a Rússia depende do subsídio chinês; a Índia não troca o mercado americano por lealdade a Pequim. O bloco não foi derrubado; demonstrou-se apenas que nunca fora um edifício, mas um aglomerado de conveniências.
Resta uma interrogação que a dissimulação torna mais aguda: pode um método que vence encenando perdurar, ou esgota-se no instante em que a encenação é desmascarada? A confiança que estes EUA dissipam para dominar aliados e enganar rivais é um recurso finito. E entre os que ainda não perceberam quanto dela já foi gasta às suas custas está, precisamente, o aliado que se julga sócio. É sobre esse aliado, sobre o preço do método e sobre a ordem que ele deixa no seu rasto que fecharemos a série. Ver-se-á na próxima coluna.
Este é o quinto texto de uma série de seis, sob o título “A destruição que reorganiza”.