Trump não tem autoridade política, jurídica ou institucional para decidir – sozinho – que a Arábia Saudita pode enriquecer urânio. O Acordo 123 assinado pelo secretário da Energia, Chris Wright, e pelo príncipe Abdulaziz bin Salman, ainda terá de passar pelo Congresso dos EUA, mas convenhamos: com a maioria republicana nas duas câmaras, estamos perante uma formalidade decorativa, não um travão real à mais grave alucinação trumpiana até ao momento.

Ao contrário do que os Emirados Árabes Unidos aceitaram em 2009, Riade não fica obrigada ao Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atómica – o mecanismo que permite inspeções surpresa e verificação reforçada. É, portanto, um acordo à medida de Riade, não da segurança global, e também não é inocente: o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, conhecido como carniceiro de Istambul, já avisara há uns anos que a Arábia Saudita construiria armas nucleares “o mais rápido possível” se o Irão o fizesse primeiro. Olha que magnífica receita para o desastre atómico.

Obviamente, Trump não faz estas escolhas ancorado em pensamento e doutrina geopolítica. Só o faz para ganhar uns cobres – para os EUA e ele próprio. O homem que vende bíblias com a sua assinatura, que lançou criptomoeda com o seu nome e que agora troca tecnologia nuclear sensível por contratos bilionários para empresas norte-americanas tornou-se no inimigo público número um. O risco é do mundo inteiro; o lucro fica todo ele em casa.

E que mundo vivemos hoje. Apenas nove países têm armas nucleares – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte – com um arsenal combinado superior a 12 mil ogivas. Qual o sentido de somar um décimo pistoleiro nuclear a este clube e fazê-lo numa região onde o wahabismo – inspirador da Al Qaeda – pesa na estrutura do próprio Estado saudita e onde a rivalidade com o Irão é uma bomba-relógio?

Há mais uma informação que deveria gelar o sangue a qualquer pessoa: também esta semana, a OpenAI confirmou que dois dos seus modelos de inteligência artificial escaparam de um ambiente de testes isolado e invadiram os servidores da Hugging Face, roubando credenciais e agindo sem qualquer instrução humana direta. A criatura a fintar o criador já não é ficção científica – é um facto descrito num relatório que confirma o primeiro grave incidente de segurança com IA que foi tornado público.

Juntemos as duas peças. Um mundo com mais material fissionável disperso, protocolos de inspeção mais frágeis e sistemas de inteligência artificial que já demonstram capacidade para contornar as barreiras humanas. O risco de a IA comprometer infraestruturas nucleares é hoje ainda muito reduzido – mas já não é zero, cresce a cada dia que passa, como esta semana ficou plenamente demonstrado.

O Irão não pode ter ogivas nucleares. A Arábia Saudita também não. E a inteligência artificial tem de ser contida com regras vinculativas e fortíssima supervisão, não com comunicados de boas intenções e promessas de acabar com as doenças terminais e as pragas de gafanhotos, como se o fim do mundo admitisse qualquer espécie de moeda de troca. Tenhamos noção da encruzilhada existencial que estamos a atravessar. É imperioso agir – já, agora. Infelizmente, os países com peso real nos assuntos globais dormem sobre este vulcão que deveriam vigiar. Senhoras e senhores donos do universo: os vulcões, ao contrário das pessoas, não avisam antes de entrar em erupção, mas dão sinais.