A verdade acabou: o impacto da pós-verdade na democracia e na economia

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam (…)

“Verdade”, Carlos Drummond de Andrade

Na peça “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, recentemente em cena no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a personagem principal, interpretada por Wagner Moura, proclamou alto e bom som: “A verdade acabou”. Tudo é subjetivo e pode ser relativizado. Tudo é passível de várias versões e interpretações. Tudo é opinião sem o necessário respaldo dos factos, que perderam relevância na dinâmica social. Por isso, o protagonista Thomas Stockmann interroga-se: “Se a minha realidade é diferente da sua realidade, então a gente vive em mundos diferentes. E se a gente vive em mundos diferentes, como é que faz para se relacionar um com o outro?”

Esta é a pergunta de um milhão de dólares: como vamos viver em sociedade e assumir um destino comum se cada um tiver a sua “verdade”? Se entre nós não existir uma realidade partilhada nem pontos de contacto? Se aquilo que serve de argamassa a uma comunidade, a confiança, for erodida pela relativização dos factos e a construção de várias versões dos mesmos acontecimentos? Se, no fundo, já não houver certezas mas apenas hipóteses em função das opiniões de cada um?

Esta visão distópica está a materializar-se à medida que se consolida a era da pós-verdade, neologismo que conceptualiza a perda de influência dos factos na formação da opinião pública em favor das emoções, experiências, convicções e crenças pessoais. O conceito ganhou particular relevância em 2016, quando pós-verdade foi eleita a “Palavra do Ano” pela Oxford University Press.

Nesse mesmo ano deu-se o Brexit e também a primeira eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. Dois acontecimentos que representam bem a capitulação da verdade perante realidades alternativas, muitas delas produzidas na máquina de fabricar mentiras que são as redes sociais. Ajudadas pelo enviesamento algorítmico, as plataformas digitais servem para disseminar fake news, intrigas, boatos e teorias da conspiração que alimentam o discurso pós-verdade que empurrou o Reino Unido para fora da UE e fez eleger o grande bufão do imobiliário nos EUA.

Curadoria do algoritmo

Muito antes da caixa de pandora aberta pelas redes sociais e da popularização do conceito de pós-verdade, Hannah Arendt alertava para os perigos da perda da capacidade de diferenciar a realidade da ficção. Na sua obra “As Origens do Totalitarismo”, a filósofa alemã defendia que, para os regimes totalitários, eram mais úteis aqueles que não distinguiam a verdade da mentira do que os próprios extremistas. A apatia, o cinismo, a amoralidade, o acriticismo e a desmemória fazem os sistemas opressores prosperar e são o fermento para a “banalização do mal”.

Com efeito, a pós-verdade é muito mais do que a prevalência da mentira. É a subordinação da verdade a interesses político-ideológicos, circunstância que compromete a confiança nas instituições e descredibiliza o debate democrático. Acresce que, com a curadoria do algoritmo, a pós-verdade tende a ensimesmar as pessoas em “bolhas”, levando-as a consumir apenas conteúdos que confirmam as suas opiniões e crenças. A exposição seletiva a informação favorece a polarização das sociedades, reduzindo o diálogo entre diferentes pontos de vista e dificultando a construção de consensos.

Segundo a teoria comunicativa de Habermas, a construção de consensos implica a inclusão de todos os pontos de vista sob a forma de argumentos racionais. Enquanto sistema representativo, a democracia precisa dessa inclusão para que as decisões políticas sejam legítimas. Os cidadãos têm de estar envolvidos no debate público sobre os valores e as normas que enformam a vida coletiva, o que vai muito para além da mera participação em atos eleitorais.

Aquilo que o filósofo recentemente falecido designou por “situação ideal de discurso (ou fala)” (ideale Sprechsituation) – a comunicação sem qualquer tipo de coerção, em que os participantes têm total liberdade para argumentar – é fundamental para alcançar um consenso político genuíno e racional, baseado exclusivamente na força dos argumentos. Isto pressupõe que o debate público seja fundado na verdade, ou seja, numa separação clara entre factos e opiniões. Sendo igualmente essencial que a criação de “factos alternativos” (expressão celebrizada pela conselheira de Trump Kellyanne Conway, em 2017) provoque censura social, algo que tem falhado no julgamento público de líderes populistas.

Declínio da confiança

Uma das principais vítimas da pós-verdade é a confiança. A prevalência das opiniões sobre os factos mina a confiança nas instituições democráticas, nos decisores públicos e nos agentes económicos. A confiança é um dos pilares do regime democrático e da vida em sociedade, mas também do bom funcionamento da economia de mercado. Sem confiança, o clima económico degrada-se e o investimento torna-se mais difícil, caro e arriscado.

A confiança nos mercados, nas instituições e nas empresas é essencial ao investimento e à iniciativa privada. Os investidores só aplicam o seu capital quando acreditam que as regras serão cumpridas e que há estabilidade legal. Já para as empresas, serem vistas como confiáveis aumenta a fidelidade dos clientes e melhora a imagem no mercado. Por outro lado, ambientes de confiança favorecem a partilha de informação e as parcerias estratégicas, fatores essenciais ao desenvolvimento da inovação.

As sociedades com maiores níveis de confiança interpessoal são também as mais competitivas e prósperas. Países como a Dinamarca, Noruega, Finlândia, Suécia ou Islândia têm em comum um conjunto de características institucionais e socioeconómicas fortemente associadas à confiança interpessoal: baixos níveis de corrupção, menor desigualdade social, sistemas de proteção social fortes e instituições públicas eficientes. Já Portugal é um dos países europeus com menores índices de confiança interpessoal, o que também poderá ajudar a explicar o nosso anémico crescimento económico.

Em suma, a confiança torna as relações económicas mais eficientes e estáveis, reduz as incertezas e sustenta o crescimento. Por conseguinte, a rarefação da confiança em sociedades onde viceja a pós-verdade tem não só graves impactos na saúde das democracias como torna insalubre o ambiente de negócios à escala local e global. A pertinência deste axioma está, de resto, a ser comprovada de forma amarga. A atual tensão geopolítica exauriu a confiança nas relações internacionais, com reflexos negativos no crescimento da economia mundial.

Donald Trump gerou desconfiança no mundo quando lançou uma guerra tarifária alicerçada em meias-verdades e rotundas mentiras. O resultado foi a instalação de um ambiente tóxico entre as potências económicas, que dissuadiu o investimento, suspendeu cadeias de abastecimento, pressionou a inflação, provocou insegurança energética e cerceou o comércio internacional. O epítome deste status quo é a mais recente crise no Médio Oriente e consequente bloqueio do estreito de Ormuz, que representa mais uma machadada na globalização económica.

Regressar a uma cultura de respeito pela verdade é uma tarefa ciclópica no atual contexto de degradação do debate público, de desconfiança generalizada nas instituições e de transição do real para o virtual nas várias esferas da vida individual e coletiva. Perante isto, torna-se essencial promover a literacia mediática, o pensamento crítico e a verificação rigorosa das fontes de informação. A capacidade de analisar evidências, identificar conteúdos falsos e confrontar diferentes perspetivas constitui um instrumento indispensável para uma cidadania informada e responsável.

Mas a defesa da verdade – e, consequentemente, da democracia e da prosperidade – também exige a responsabilização dos produtores de conteúdos digitais e a regulação das tecnologias emergentes, como a inteligência artificial. Tudo isto, obviamente, sem travar a inovação tecnológica ou coartar a liberdade de expressão.