Se este verão lhe apetecer trocar o all inclusive por uma odisseia digna de herói grego, há um culpado claro: Christopher Nolan. O realizador decidiu pegar em Homero, espalhá-lo por seis países e criar não só um dos filmes do ano, mas também um roteiro de viagem que faz qualquer GPS entrar em crise existencial.

A Odisseia, a nova superprodução liderada por Matt Damon, com Anne Hathaway, Zendaya e Tom Holland, não se limita a contar a história de Ulisses — convida o espectador a segui-la, literalmente. E o melhor: sem ter de enfrentar ciclopes reais.

A viagem começa de forma inesperada na Escócia, onde praias dramáticas e castelos dignos de lenda substituem a geografia clássica. Em Moray, o regresso de Ulisses ganha vento, nevoeiro e aquele toque melancólico que só o Atlântico Norte sabe oferecer. Não estava em Homero? Não. Funciona no cinema? Absolutamente.

De seguida, o Mediterrâneo assume o protagonismo. Em Favignana, na Sicília, a ideia de uma “ilha das cabras” ganha contornos de postal de luxo, com águas cristalinas e trilhos que fazem esquecer qualquer ligação Wi-Fi. Mais a norte, as Ilhas Eólias entram em cena como o reino dos ventos — e, convenhamos, poucos lugares fazem melhor esse papel do que um arquipélago vulcânico.

Mas é no Peloponeso que a narrativa regressa ao seu ADN clássico. Entre fortalezas, grutas e praias quase perfeitas, a Grécia entrega o cenário mais fiel ao espírito de Homero — com o bónus de hoje poder ser visitada sem enfrentar monstros mitológicos.

Depois, a viagem mergulha — literalmente — no submundo. A Islândia surge como o Hades contemporâneo: negra, intensa, quase irreal. A praia de Reynisfjara, com as suas colunas de basalto e ondas pouco amigáveis, é o tipo de lugar onde se acredita facilmente que alguém abriu uma porta para o além.

Por fim, Marrocos fecha o percurso com chave de ouro — ou melhor, de adobe. Entre Ait Ben Haddou, Dakhla e Essaouira, nasce uma Troia cinematográfica que mistura história, deserto e oceano, provando que às vezes os mitos ficam melhor com um toque de calor africano.

No fim de contas, Nolan fez algo raro: transformou um clássico da literatura num convite de viagem. E se Ulisses demorou anos a regressar a casa, hoje o maior desafio talvez seja outro — escolher por onde começar.