O BPI anunciou, na apresentação de resultados relativa ao primeiro semestre de 2026, uma reclassificação contabilística da sua participação de 35% no Banco Comercial e de Investimentos (BCI), em Moçambique. A medida, que teve um impacto negativo de 35 milhões de euros nas contas do semestre, visa “tornar menos volátil a participação”, conforme explicou o CEO do banco, João Pedro Oliveira e Costa.

Na prática, a participação no BCI deixou de ser classificada como “empresa associada” (reconhecida pelo método de equivalência patrimonial) e passou a ser registada como “ações ao justo valor através de outro rendimento integral”. Isto significa que eventuais desvalorizações da participação deixam de impactar a conta de resultados e passam a ser contabilizadas em reservas, abatendo ao capital próprio.

João Pedro Oliveira e Costa foi claro ao afirmar que “as operações em África não são estratégicas” para o BPI. O banqueiro sublinhou que “não há conversações em curso com a CGD (maior acionista do BCI) nem com terceiros”, mas que o banco “mantém total disponibilidade” para vender a participação, “dado tratar-se de uma participação não estratégica”.

O movimento replica o que o BPI já tinha feito com a participação no BFA, em Angola, em 2016/2017. Na altura, o banco retirou os seus administradores, deixou de ter influência significativa na gestão e reclassificou a participação como ativo financeiro, fora da consolidação integral. Esse distanciamento sinalizou a disponibilidade para vender, o que se concretizou com um IPO em que o BPI alienou 15% do capital.

“Aplicámos agora a mesma lógica ao BCI — deixámos de ter influência na gestão, que hoje é assegurada pela Caixa Geral de Depósitos (CGD), com a nossa total confiança. Não estamos a negociar a venda dos nossos 35% com a CGD nem com mais ninguém, mas mantemos total disponibilidade para o fazer, dado que a participação não é estratégica para o BPI”, reforçou o banqueiro, acrescentando que tem “uma excelente relação com Paulo Macedo” e que estão alinhados quanto à gestão do BCI.

A CFO do BPI, Susana Trigo Cabral, explicou que “em relação a participações financeiras sem controlo, existem duas formas de registo contabilístico: o equity method, que era o que usávamos para o BCI, e o justo valor através de ‘outro rendimento integral’, para o qual passámos agora”. A administradora sublinhou que “esta alteração não muda o valor da participação no BCI nem o valor dos capitais próprios do banco”, tratando-se de “uma transferência técnica: uma parte das reservas de desvalorização cambial e de mais-valias em títulos, que estava registada em ‘outro rendimento integral’, teve de transitar para resultados — é, sobretudo, um efeito contabilístico”.

A partir de agora, tal como já sucede com o BFA, o BPI deixa de reconhecer nos resultados a quota-parte dos lucros do BCI segundo o método de equivalência patrimonial, passando a registar apenas os dividendos recebidos. Eventuais variações de justo valor da participação serão reconhecidas em “outro rendimento integral”.

Em relação aos valores ainda a receber do BFA, João Pedro Oliveira e Costa afirmou que “continuamos a receber entre 5 e 10 milhões de euros por mês, já ultrapassámos 60% do valor total esperado e estou confiante de que, até ao final do ano, teremos recebido a totalidade — sempre em dólares transferidos para Portugal” (os montantes em kwanzas já foram recebidos localmente).