O avanço tecnológico tem sido algo positivo, contudo tem trazido algumas dificuldades e desafios com ele. Um dos mais presentes na vida das pessoas é o ter de provar, quando se entra em sites, que se é humano.
Uma das palavras que entrou para o nosso vocabulário foi “bot”, uma abreviação para robô e que permite a execução de tarefas repetitivas numa rede. Apesar de terem sido criados com uma boa intenção, estes bots também podem ser mal-intencionados. Neste caso, os bots realizam atividades que criam riscos de segurança para as organizações.
Mas o que é que os bots têm a ver com o termos de provar que somos humanos? Na era tecnológica existe um conceito oposto ao de bots, ‘proof of humanity’, é aqui que provamos que somos humanos e impedimos que o bot e contas falsas entrem.
É com este objetivo que nasceu a Tools for Humanity, uma empresa criada por Sam Altman e Alex Blania, em 2019, para desenvolver soluções para humanos na era da inteligência artificial (IA).
Tiago Sada, CPO da Tools for Humanity, explicou ao Jornal Económico (JE) que a ideia para esta empresa nasceu porque os “fundadores acreditavam que a IA avançada ia acontecer mais rápido e cedo que a maioria das pessoas pensava”.
Com esta crença a empresa foi criada para “construir tecnologia para ajudar a combater alguns desafios” que nascessem com a IA.
Um dos primeiros desafios que a empresa está a tentar resolver é a “quebra de confiança na internet”, refere. Na era da IA um dos maiores problemas é não “saber em quem confiar”, uma vez que tudo “pode ser falso”.
“Quando hoje vemos duas mil contas no Twitter a dizer algo, não sabemos se é de facto a opinião de duas mil pessoas ou apenas de uma pessoa com dois mil bots”, apontou.
Apesar de este ser um problema que já existia nas redes sociais há algum tempo, está-se a espalhar por toda a internet. Esta é uma realidade que criou um “ecossistema inseguro”.
Assim sendo, a empresa acredita que a solução “passa pela ‘proof of humanity’, que é basicamente a ideia de conseguirmos saber se uma conta na internet pertence a uma pessoa ou a um bot, sem sabermos mais nada sobre eles”.
Para conseguir isso a empresa criou o “World ID”, que funciona como um passaporte digital anónimo, e que prova se o utilizador é uma pessoa real sem ter de se revelar nenhuma informação pessoal. Os utilizadores podem utilizar este serviço através da aplicação World App.
Este passaporte tem vários níveis de verificação. No mais básico é apenas necessário tirar uma fotografia com o smartphone, no nível intermédio verifica-se a humanidade com o passaporte ou com a carta de condução e no nível mais elevado o utilizador tem de se deslocar a um local que tenha uma “orb”, uma câmara desenvolvida pela empresa e que utiliza IA para verificar de facto se a pessoa é humana.
Depois da fotografia ser tirada a orb “envia-a para o smartphone da pessoa e apaga-a da sua memória”. Ou seja, tudo fica apenas na posse do utilizador.
Esta é uma solução que já está disponível em mais de 100 países, sendo Portugal um deles, e que já conta com mais de 18 milhões de utilizadores a utilizar a orb e um total de 40 milhões.
Até agora quando entramos num site somos confrontados com um captcha, uma ferramenta de segurança que confirma se somos ou não humanos, mas neste momento “alguns bots são mais inteligentes do que os humanos, e então a inteligência já não serve para diferenciar humanos de bots”, referiu.
Atualmente “é muito difícil diferenciar os dois” uma vez que o bots têm aprendido a simular um humano na internet. Todos os modos que existiam até agora a “IA tem conseguido ultrapassar, por isso tivemos de criar algo novo, que não existia antes”.
Apesar de ser inovadora, Tiago Sada revelou que acredita que os níveis mais baixos de verificação que a aplicação permite vão ser “ultrapassados” pela IA no futuro, mas no caso da orb é um pouco diferente. “O que torna especial a orb é o facto de não se puder fazer a partir de casa, ou seja, as pessoas têm de se deslocar a um local próprio para a utilizarem e assim ninguém consegue utilizar IA, nem ligar a nada”, explicou.
Com o objetivo de “preservar a confiança na internet” sem ter de “partilhar informação pessoal com ninguém”, a aplicação já tem protocolos com várias empresas de diversos setores.
Utilizadores estão mais conscientes
Enquanto no passado os utilizadores da internet estavam pouco a par da necessidade e da importância de provar que era humano, atualmente a realidade já é outra.
“No momento em que as coisas começaram a evoluir, com o lançamento do ChatGPT e dos restantes modelos, as pessoas e as empresas começaram a ter mais noção da importância desta verificação”, revelou.
Para Tiago Sada estamos num momento em que “quando falamos com clientes, todos entendem o problema, e mais do que perceber, já o sentiram na sua vida”.
Podemos acabar com os bots?
Na opinião de Tiago Sada esta não é a solução para o problema. “Os bots são fantásticos, a IA é muito útil, e ambos têm mudado a nossa forma de viver e trabalhar”, referiu.
Para o CPO todas as inovações, desde carros aos computadores, trouxeram desafios mais tarde, a IA não é exceção. “A IA é uma ferramenta incrível, mas vem com alguns desafios”, salientou, “mas só porque temos de resolver esses desafios não significa que isto não valha a pena”, declarou.
Com esta nova tecnologia a cibersegurança ganhou outro valor, sendo o mais provável que nos próximos anos experienciemos “tempos de instabilidade”, devido aos novos modelos de IA que vão chegar e que facilmente vão encontrar vulnerabilidades nos sistemas que eram desconhecidas.