Duas mulheres e dois homens mantêm-se na disputa pelo cargo de secretário-geral da ONU e serão ouvidos a partir de terça-feira pelos Estados-membros, dando início a um processo que poderá ser histórico caso a liderança eleita seja feminina.
Em consonância com uma tradição de rotação geográfica nem sempre observada, a posição de secretário-geral da ONU para o mandato de 2027–2031 está a ser reivindicada pela América Latina.
Além disso, muitos países também defendem que uma mulher ocupe o cargo pela primeira vez nos 80 anos de história da ONU.
Contudo, são os membros do Conselho de Segurança da ONU, que devem iniciar o processo de seleção até ao final de julho, que realmente têm a decisão nas mãos.
Eis alguns pontos essenciais sobre cada um dos candidatos que vai disputar a eleição para 10.º secretário-geral da ONU:
Michelle Bachelet
A ex-presidente chilena Michelle Bachelet entrou na corrida à liderança da ONU através da nomeação conjunta do Chile, México e Brasil. Contudo, o seu país de origem desistiu de a apoiar na sequência da eleição do Governo de extrema-direita de José Antonio Kast.
Bachelet é a mais politicamente destacada dos quatros candidatos atualmente em competição, tendo presidido o Chile de 2006 a 2010 e de 2014 a 2018, além de ter sido a primeira mulher do Chile e de toda a América Latina a ocupar o cargo de ministra da Defesa. Também foi a primeira diretora da ONU Mulheres e ocupou ainda o cargo de alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Apesar de ser mulher e de ser da América Latina – dois fatores que poderiam pesar a seu favor -, Bachelet enfrentará dois adversários de peso no Conselho de Segurança, ambos com poder de veto.
Um deles é a China, que protestou veementemente contra um relatório independente da chilena sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur, apresentado em 2022 na sua despedida do cargo de alta comissária para os Direitos Humanos.
O segundo adversário poderoso são os Estados Unidos, que já denunciaram as críticas da chilena a Israel e a Washington.
A juntar a tudo isto, a posição pró-aborto da antiga presidente tem atraído duras críticas dos republicanos mais conservadores dos Estados Unidos.
Michelle Bachelet é formada em Medicina com especialização em Cirurgia, Pediatria e Saúde Pública. Também estudou estratégia militar na Academia Nacional de Estratégia e Política do Chile e no Colégio Interamericano de Defesa, nos Estados Unidos.
Rafael Mariano Grossi
Diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi é um diplomata argentino com 40 anos de experiência em diversas áreas, incluindo paz e segurança, não proliferação e desarmamento, e desenvolvimento internacional.
Chegou à corrida para sucessor de António Guterres através da nomeação da Argentina.
“Rafael Mariano Grossi é um dos diplomatas argentinos mais respeitados, cujo trabalho como diretor-geral da AIEA lhe rendeu admiração mundial”, defendeu o Governo argentino.
“O seu profundo conhecimento do sistema multilateral, capacidade de fomentar o diálogo diplomático, o seu histórico comprovado em situações de conflito e grandes crises internacionais como interlocutor imparcial e eficaz, a sua competência técnica e linguística e o seu compromisso com a Carta da ONU fazem dele um candidato excecional para cumprir as responsabilidades que o mundo exige hoje do secretário-geral”, acrescentou Buenos Aires.
Grossi é licenciado em Ciências Políticas, tem um mestrado em Relações Internacionais e um doutoramento em História e Política Internacional.
Com uma campanha baseada em “resultados efetivos”, é atualmente o favorito entre aqueles que procuram um líder mais técnico, especializado em programas de armas nucleares.
Em outubro passado, numa conferência de imprensa em Nova Iorque, Grossi considerou que a sua experiência pessoal a mediar conflitos e o papel de interlocutor regular entre potências beligerantes poderão contribuir para ser eleito.
Grossi recusou renunciar ao cargo na AIEA enquanto concorre à liderança da ONU, contrariando uma resolução da Assembleia-Geral que pedia aos funcionários das Nações Unidas que “considerassem” suspender funções durante a campanha, a fim de evitar conflitos de interesse.
Rebeca Grynspan
A costa-riquenha Rebeca Grynspan suspendeu a sua liderança da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) quando se tornou candidata à sucessão de Guterres.
Economista, ex-vice-presidente da Costa Rica – país que a nomeou oficialmente – e a primeira mulher a liderar a UNCTAD em 60 anos de história, Grynspan é uma líder experiente em instituições internacionais.
Com uma sólida trajetória em governo, diplomacia da ONU, política económica e cooperação multilateral em nível global, recebeu em 2024 o Prémio de Negociadora do Ano de Doha por liderar os esforços da ONU para restaurar as rotas comerciais do Mar Negro face à guerra iniciada pela Rússia na Ucrânia.
Na sua declaração de visão para a ONU, a costa-riquenha afirmou que a confiança nas Nações Unidas estava a diminuir e que era necessária coragem para mudá-la e restaurar a crença na capacidade da organização de promover a paz e o desenvolvimento.
Macky Sall
No início de março, o ex-presidente senegalês Macky Sall entrou na corrida para secretário-geral após uma nomeação do Burundi, sendo potencialmente a candidatura mais polémica em competição.
A candidatura não foi apresentada pelo Senegal, uma vez que Macky Sall é acusado pelos novos dirigentes do seu país de ter ocultado dados económicos importantes, como a dívida pública.
A União Africana (UA) recusou apoiar a candidatura de Sall, depois de ter sido rejeitada por 20 dos 55 Estados-membros da organização.
Sall, 64 anos, que governou o Senegal de 2012 a 2024, é visto pelos seus apoiantes como um candidato capaz de conduzir negociações multilaterais em nome do continente, mas os seus detratores criticam o seu regime pela dura repressão aos protestos da oposição.
A falta de apoio consensual em África poderá enfraquecer a influência do continente no processo de seleção da ONU, onde o apoio regional é importante.
Na sua declaração de visão para o cargo, Sall afirmou que a ONU precisava de ser reformada, simplificada e modernizada.