Analistas de relações internacionais avisaram hoje que a ordem internacional está a entrar numa fase de competição estrutural entre Estados Unidos (EUA) e China, marcada por perceções opostas sobre poder, estabilidade e influência global.

Durante um congresso organizado pela Câmara do Comércio dos Estados Unidos em Hong Kong, o antigo diplomata e académico Kishore Mahbubani alertou que a rivalidade crescente entre Washington e Pequim se tornou o “principal eixo geopolítico do século XXI”, sublinhando que as transformações no equilíbrio de poder global estão a ser frequentemente mal interpretadas, tanto no Ocidente como no resto do mundo.

Para o antigo embaixador de Singapura e ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU (2001–2002) o confronto entre a “superpotência dominante e a superpotência em ascensão era inevitável”, apesar dos esforços diplomáticos no sentido oposto.

“Tem sido dito repetidamente que as relações entre os dois podem ser vantajosas para ambas as partes, mas raramente é assim em política. Alguém fica sempre a perder”, descreveu Mahbubani.

O diplomata advertiu que “quem acredita que os EUA estão a enfraquecer não pode estar bom da cabeça” e sublinhou que continua a ser a potência militar dominante e a maior economia mundial, referindo estimativas que colocam o Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano em cerca de 30 biliões de dólares (25,66 biliões de euros) em 2025, face aos 20 biliões de dólares (17,11 biliões de euros) da China.

“No entanto, enquanto subestimamos os EUA, qualquer pessoa que diga que a China está a perder também deveria ser questionada”, afirmou.

Mahbubani descreveu a ascensão chinesa como “a maior transformação individual da história mundial, provavelmente desde o início da própria história registada”, sublinhando a velocidade e a escala do crescimento económico do país nas últimas três décadas.

“Estamos a falar de uma economia que passou de representar cerca de 6% da produção industrial global para níveis que poderão aproximar-se dos 45% num espaço de poucas décadas”, afirmou.

Para Mahbubani, a ascensão da China e a resiliência dos EUA são agora elementos cruciais num sistema internacional cada vez “mais competitivo e interdependente”, colocando pressão em países terceiros para “escolher lados”.

“Os estados mais pequenos enfrentam uma pressão crescente para navegar entre as duas potências, à medida que a rivalidade estratégica se sobrepõe à lógica tradicional da globalização”, avisou.

No mesmo evento, a académica e autora Liu Zongyuan sublinhou que a China interpreta a ordem internacional de forma fundamentalmente distinta dos EUA.

“Pequim não vê o mundo da mesma forma que Washington”, afirmou a investigadora sénior para estudos sobre a China no grupo de reflexão norte-americano Council on Foreign Relations.

“Washington tende a dividir o mundo entre aliados e adversários, enquanto Pequim o vê através de relações mais variáveis e instrumentais”, acrescentou.

Liu considerou que a China não encara nem a guerra entre Rússia e Ucrânia, nem o conflito entre EUA, Israel e Irão como algo do qual seja protagonista ou beneficiária direta, mas poderá estar a retirar ganhos “indiretos da deterioração da posição internacional dos EUA”.

“A China está a obter aquilo que sempre quis de certa forma: uns EUA menos credíveis e menos capazes de mobilizar consenso internacional”, afirmou. Contudo, advertiu que a evolução é ambivalente para Pequim.

“Um Washington menos credível reduz a capacidade dos EUA de formar coligações contra a China, mas um Washington mais instável e mais disposto a recorrer à força torna o sistema internacional mais perigoso”, alertou.