Estudo revela que 58% das mulheres ativas acumulam cuidados e 38% colocam a saúde dos outros à frente da sua
Quase seis em cada dez mulheres ativas em Portugal acumulam responsabilidades profissionais com o cuidado de dependentes, e mais de um terço admite colocar a saúde dos outros à frente da sua. A conclusão é de um estudo apresentado esta segunda-feira pela CUF Oncologia, que alerta para obstáculos estruturais que continuam a comprometer a prevenção e o diagnóstico precoce.
O estudo “Saúde Preventiva nas Mulheres Ativas”, desenvolvido pela VOH CoLab em colaboração com a CUF, analisou os hábitos de autocuidado, prevenção e rastreio clínico de 2.564 mulheres inseridas no mercado de trabalho. Os resultados revelam um padrão consistente: a saúde preventiva não depende apenas da vontade individual, mas de condições logísticas, emocionais e profissionais que muitas vezes falham.
Segundo os dados, 58% das inquiridas têm dependentes a cargo, acumulando funções que acabam por inverter prioridades clínicas. Cerca de 38% admitem colocar a saúde de terceiros à frente da sua própria, um comportamento que, de acordo com os especialistas, pode comprometer a eficácia do diagnóstico precoce.
“A prevenção não pode ser vista apenas como uma escolha individual”, sublinhou Rita Marques da Costa, diretora da CUF Oncologia, durante a apresentação do estudo no evento “Precisamos mesmo de falar. Saúde Preventiva no Feminino”, no Porto. “Muitas mulheres sabem que devem cuidar da sua saúde, mas enfrentam barreiras práticas, familiares e profissionais que tornam esse cuidado mais difícil”.
Flexibilidade laboral mais teórica do que real
Um dos aspetos mais destacados do estudo é o desfasamento entre a flexibilidade laboral formal e a sua aplicação prática. Embora 74% das mulheres afirmem ter flexibilidade para consultas médicas, apenas 26% podem ausentar-se sem justificar ou compensar horas.
Este cenário é particularmente evidente na chamada “geração sanduíche” — mulheres entre os 45 e os 54 anos que cuidam simultaneamente de filhos e pais. Menos de metade das que têm dois ou mais dependentes nesta faixa etária sente dispor de apoio suficiente para gerir a própria saúde.
Entre as mulheres dos 25 aos 44 anos, designadas como “Mulheres 360º”, verifica-se também um declínio significativo no suporte emocional à medida que aumenta a carga familiar. A perceção de apoio desce de 75% entre as que não têm dependentes para 53% nas que cuidam de dois ou mais familiares.
Saúde mental ganha centralidade entre as mais jovens
O estudo identifica ainda uma procura crescente por apoio psicológico, sobretudo entre as mulheres mais jovens, até aos 24 anos. Este grupo reporta níveis elevados de necessidade de suporte emocional, associados à entrada no mercado de trabalho e às exigências sociais e profissionais.
A saúde mental surge, assim, como uma prioridade crescente no âmbito da prevenção, refletindo uma mudança no perfil das preocupações das gerações mais novas.
Baixa adesão a rastreios preocupa especialistas
Outro dos alertas prende-se com a baixa adesão a rastreios essenciais, nomeadamente na vigilância do cancro colorretal e de doenças intestinais, sobretudo entre as faixas etárias mais jovens.
“Adiar a prevenção até ao aparecimento de sintomas pode significar perder tempo clínico relevante”, advertiu Catarina Rodrigues dos Santos, adjunta da Direção Clínica da CUF Oncologia. “Há ainda um caminho importante a fazer na literacia em saúde e na criação de condições que tornem a prevenção mais acessível”.
Empresas chamadas a intervir
Perante este cenário, a CUF defende um maior envolvimento das organizações na promoção da saúde preventiva. Medidas como flexibilidade efetiva para consultas, programas de saúde no local de trabalho, campanhas de sensibilização e comunicação interna sobre rastreios são apontadas como fundamentais para reduzir barreiras.
“A saúde preventiva das mulheres é também um tema de liderança e sustentabilidade”, afirmou Paula Brito Silva, administradora executiva da CUF. “Empresas que criam condições para o autocuidado estão a investir em bem-estar, produtividade e retenção de talento”.
Realizado entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, com participação de colaboradoras de empresas como MEO, Pestana, Jerónimo Martins, Hovione e CUF, o estudo pretende contribuir para a definição de políticas corporativas mais alinhadas com as necessidades reais das mulheres no mercado de trabalho.
A conclusão é clara: sem mudanças estruturais — dentro e fora das empresas — a prevenção continuará a ser adiada, com custos individuais e coletivos difíceis de ignorar.