A educação atravessa um conjunto de desafios difíceis de enfrentar. Alguns são velhos conhecidos. Está constatada a progressiva degradação das condições oferecidas pela carreira docente em Portugal e a consequente baixa atratividade que torna incerta a capacidade de resposta à necessidade de formação de mais 20 mil Professores até 2030, conforme foi reportado no estudo encomendado à NOVA SBE o ano passado.

Outros são recentes e não especificamente portugueses, afetando igualmente o ensino superior. Pense-se na invasão da inteligência artificial generativa e a sua cada vez maior influência na procura da informação, bem como nos efeitos perniciosos que ela poderá gerar no processo de construção de conhecimento, inclusive dos alunos. Ou ainda nas consequências da concentração de poder nas empresas tecnológicas que detêm estes modelos. A atomização da sociedade promovida pelo sujeito agarrado ao telemóvel torna legítimo questionar a possibilidade de um futuro distópico em que a interação em sala de aula fosse substituída por informação feita à medida – e, quem sabe, enviesada e selecionada por dinâmicas de mercado – de um sujeito tornado consumidor.

Para fazer face a estes e outros problemas um dos elementos centrais é a confiança. Alunos e encarregados de educação precisam de confiar no sistema educativo para que ele seja bem-sucedido. A confiança é uma das bases não só da experiência pedagógica na relação professor-aluno como também da responsabilidade que a sociedade deposita na escola. E ela tem de existir, claro está, também no que toca à avaliação. E foi precisamente esse aspeto que foi posto em causa com o malogrado processo de digitalização dos exames nacionais este ano.

Digitalização e confusão

Independentemente das responsabilidades, este processo dificilmente poderia ter corrido pior. Começou com a aparente falta de preparação tendo em conta as falhas no exame-piloto de Filosofia do ano passado. Não terá sido feito caso dos problemas técnicos semelhantes aos atuais, já na altura reportados pela Associação de Professores de Filosofia e agora recordados. A esse propósito, em mais caso de passa-culpas tão tipicamente português, o ex-presidente do júri nacional de exames admite conhecimento destes problemas e assume ser contra o alargamento generalizado do modelo em fase tão precoce; o ministro Fernando Alexandre responsabiliza-o, por não ter deixado nenhum relatório; ao que o anterior responsável responde não o ter feito… por não lhe ter sido pedido.

O processo continuou com os atrasos na disponibilização do acesso à plataforma e aos exames para classificação, a tentativa de transferência da responsabilidade para as escolas (o misterioso caso das folhas de resposta agrafadas), a alegada dificuldade em encontrar classificadores (e os erros nas convocatórias), as ameaças veladas aos diretores de escolas e agrupamentos, a responsabilização das famílias pela marcação de férias. E, claro, as folhas de exame ausentes ou trocadas, as provas com classificações abaixo de zero, os erros de exportação e as classificações em suspenso ou erradas. A que acresce, cereja no topo do bolo, a taxa de 25 euros para reapreciação das provas, o que obviamente coloca questões de equidade – já levantadas, de resto, pelos diferentes tempos de divulgação das classificações.

Poder-se-ia continuar a elencar a lista dos problemas organizacionais e das falhas de comunicação associadas a este desastre, mas seria ocioso fazê-lo, até porque é provisória – não é possível garantir, neste momento, que não continuem. Mas eles têm consequências. No momento em que escrevo estas linhas, sabe-se que apenas foram feitas 304 candidaturas no primeiro dia do acesso ao concurso de acesso ao ensino superior (a contrastar com as 10 mil do ano passado). E veremos ainda que constrangimentos serão criados pela criação da época especial (obviamente necessária) em Setembro.

Neste processo, e ao contrário da esperança declarada pelo Presidente da República, parece-me que a confiança dos alunos e famílias no processo de avaliação deve ter caído dramaticamente, e aumentado os níveis de ansiedade numa fase tão crucial como é a da transição para o Ensino Superior. Estamos a formar alunos que dificilmente voltarão a confiar num processo deste género.

Valham-nos os Professores

Com isto, só me apetece fazer o elogio dos Professores, essa classe – que por vezes não parece propriamente ter consciência de classe – tantas vezes injustamente tratada e vilipendiada. Foram os classificadores que aguardaram em regime de prontidão dias a fio pela chegada das provas, foram eles a lidar com os problemas técnicos e as incertezas da correção e que nalguns casos com certeza terão passado madrugadas a trabalhar. Foram as comunidades escolares, com as direções à cabeça, que abriram as escolas à noite e ao fim-de-semana para tentar cumprir a demanda da publicação das notas o mais cedo possível.

E, no meio disto tudo, ainda tiveram que ouvir as críticas do primeiro-ministro, que assumiu um tom acusatório em relação à alegada resistência de alguns docentes a este processo (ao contrário do ministro Fernando Alexandre, que tem assumido os erros e apresentado desculpas), naquilo que os diretores descreveram como sendo um “murro no estômago”. Espero que o reconhecimento público seja o contrário. É muitas vezes em momentos de crise que nos lembramos de quem é essencial.

E a ciência?

Entretanto, e de forma totalmente desapercebida da atenção mediática neste momento, continua a fusão das áreas da ciência e da inovação em Portugal, patente no Encontro Ciência e Inovação da semana passada, com o primeiro-ministro a sublinhar a “finalidade intrínseca” do investimento feito na ciência: a aplicação desse conhecimento na realidade económica e empresarial. Serão com certeza inocentes aqueles que ainda gostariam de pensar que a finalidade primária do investimento em ciência seria o puro e simples avanço do conhecimento. Uma vez que a AI² tem levado a cabo a sua avaliação estratégica para definir as prioridades de investimento, continuo na expectativa para ver em que ponto ficará o investimento em ciência fundamental, Artes e Humanidades (ou tudo o que não seja facilmente monetizável) neste processo.

Dir-se-á, em defesa da visão que subjaz a estas transformações: não se pode ser anti-reformista ou contra a ‘modernização’. Ao que se poderá responder: nada contra a mudança, desde que seja na direção certa. O processo de avaliação digital tem com certeza as suas vantagens; e, no que à ciência diz respeito, se, no final, houver maior investimento no sistema científico e técnico nacional e ele for equitativamente distribuído, aplaudir-se-á.

Mas o problema é quando slogans como ‘inovação’, ‘modernização’ ou ‘desburocratização’ são usados para tentar justificar processos que avançam mais depressa do que deviam e, pelo caminho, na sua ânsia de transformação (leia-se: extinção de organismos), arriscam destruir o que é mais fundamental.