Foi inevitável o choque (e consternação) que tivemos há uns dias ao assistir às imagens de milhares de pessoas a chegar a Ceuta. “Bandos” de jovens, certamente em desespero que vinham em busca de emprego e de uma vida longe da pobreza a que as terras de onde vêm os condena. Foram iludidos e empurrados para uma falsa promessa e depois novamente descartados e forçados ao regresso.
Mas o choque – agora sem consternação alguma – não se esgotou com as imagens que nos entravam em casa; na verdade agudizou-se com as reações que rapidamente se amesquinharam no país e no mundo como réplicas da direita radical, desde Ventura a Trump, sem se desviar de Milei.
Começou-se logo com a terminologia da “remigração” promovida por partidos extremistas europeus que defendem deportações de imigrantes, pois acham que as sociedades entram em declínio por causa da imigração. Nos exemplos aludidos, os líderes de tais ideologias, esqueceram-se, convenientemente, que os portugueses não fizeram decair a França; nem os europeus, mexicanos e africanos pioraram os EUA; nem os espanhóis ou os sul-americanos diminuíram a Argentina, respetivamente. Já dos citados, restam poucas dúvidas que têm declinado, eles mesmos, a paz social nos seus países e no mundo. Surpreendente e cinicamente, dizem que o fazem em nome dos “direitos humanos e dos valores democráticos”. E há uma legião de crédulos que os seguem e elegem, seja por via da manipulação, influência e instrumentalização dos media e das redes sociais; seja pela exploração de sentimentos de revolta, injustiça e desespero (“o ódio chega a convencer pobres a votarem contra si mesmos” …). Nem nas minhas piores projeções poderia imaginar que ainda há tanta gente desprevenida, iletrada e, o pior, tanta gente cruel e alucinada à nossa volta, que expele tanta aversão e fúria contra outros seres humanos; e que cataloga os imigrantes como delinquentes e marginais, esquecendo-se que a maioria destes não são ilegais, não são cadastrados e são contribuintes do Estado.
Aos imigrantes de Ceuta chamaram de invasores mesmo sabendo o quão foram ludibriados por falsas informações no Instagram. E logo de seguida grupos e dirigentes políticos desta facção extremada, e populista, desembarcaram na mesma cidade para bramir contra a emigração e sobre o “perigo” destas pessoas irem para a Europa; e, certamente, para tentar acicatar o medo e a raiva nos locais com os seus discursos islamofóbicos e anti-emigração. Correu-lhes mal: a população boicotou-lhes as intenções e iniciativas. Esqueceram-se que ali convivem há séculos diferentes culturas e religiões e, certamente, diferentes ideologias, e que todas têm convido bem ao longo de gerações sem qualquer perda cultural.
Outras populações têm de se insurgir também contra a invasão (esta, sim, uma invasão) da ideologia da extrema direita: invade a moral e a ética dos povos, impondo-lhes moralismos conservadores e retrógrados que atentam contra os direitos humanos e das minorias. É imperativo que os povos se rebelem contra tudo o que pressuponha a fragmentação social, o autoritarismo e a repressão; o ultranacionalismo, o chauvinismo, a xenofobia, a teocracia, o racismo, a homofobia, a transfobia ou o reacionarismo.
“Acordai!
Acordai, homens que dormis”.