O verão traz consigo uma pausa natural no ritmo do quotidiano, e talvez por isso seja a altura mais adequada para repensarmos a nossa relação com os ecrãs. Falamos há anos sobre economia da atenção, sobre modelos de negócio construídos para nos manter ligados o máximo de tempo possível, mas raramente paramos para medir o custo real dessa ligação permanente, sobretudo entre os mais jovens.
Os dados são conhecidos e continuam a preocupar. Adolescentes portugueses passam, em média, várias horas por dia em redes sociais, muitas vezes antes de dormir, o que compromete o sono, a concentração escolar e, a prazo, a saúde mental. Mas seria injusto isolar os jovens nesta análise. Os pais, envolvidos em rotinas profissionais cada vez mais exigentes, também vivem agarrados ao telemóvel, respondendo a emails ao jantar ou consultando notificações de trabalho durante o único momento do dia em que estão em família. O detox digital não é, por isso, um tema apenas dos adolescentes, é um tema de toda a família, e de toda a sociedade.
Esta preocupação já se traduziu em decisões concretas em vários países, e Portugal não ficou de fora. A partir do ano letivo de 2025/2026, o uso de telemóveis passou a estar proibido nas escolas portuguesas para os alunos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico, uma medida que acompanha uma tendência internacional já consolidada. A Holanda proibiu telemóveis, tablets e smartwatches nas escolas desde 2024, a Hungria fez o mesmo no início do ano letivo seguinte, e a Comunidade Francesa da Bélgica passou a impedir o uso dos aparelhos durante os intervalos a partir de 2025/2026.
Segundo a Unesco, cerca de um quarto dos países do mundo já tem leis que restringem o uso de smartphones em contexto escolar, e estudos feitos na Bélgica, Espanha e Reino Unido mostram que a medida melhora os resultados escolares, reduz o bullying e reforça a concentração e a autoestima dos alunos, com efeitos particularmente positivos entre as raparigas.
Também no acesso às redes sociais o debate avançou e Portugal tem vindo a acompanhar a discussão europeia sobre a matéria. A Austrália – e, bem! – tornou-se o primeiro país do mundo a impor uma idade mínima de 16 anos para se manter uma conta em plataformas como Instagram, TikTok, Facebook ou Snapchat, e o exemplo está a ser observado com atenção por vários governos europeus, incluindo instituições portuguesas ligadas à proteção de menores. Os primeiros resultados são, no entanto, um alerta útil, pois mostram que a maioria dos adolescentes continua a contornar a restrição, o que reforça uma ideia central, a de que a regulação sozinha não substitui a educação para um uso responsável.
Do ponto de vista económico, esta discussão tem mais relevância do que aparenta. Empresas com culturas de trabalho que respeitam o direito à desconexão registam, segundo diversos estudos internacionais, níveis mais baixos de absentismo e maior produtividade. Trabalhadores permanentemente disponíveis por telemóvel não são necessariamente mais produtivos, são apenas mais cansados. O mesmo raciocínio aplica-se aos jovens, cuja capacidade de aprendizagem beneficia claramente de períodos sem estímulos digitais constantes.
O verão oferece uma oportunidade prática para experimentar este exercício em família, sem necessidade de grandes teorias ou de soluções radicais. Não se trata de demonizar a tecnologia, que continua a ser uma ferramenta essencial para o trabalho, para a educação e para a própria vida social dos jovens. Trata-se antes de recuperar o uso consciente, planeado e limitado no tempo, em contraponto ao uso automático e permanente que se instalou nos últimos anos.
Algumas medidas simples, que já comecei a adotar em casa com a minha mulher e os meus quatro filhos, podem ajudar qualquer família a iniciar este processo. Definir horários sem ecrãs, por exemplo durante as refeições ou na hora antes de dormir, é um ponto de partida acessível e eficaz. Escolher um dia por semana, ou mesmo um fim de semana completo durante as férias, para reduzir drasticamente o uso de redes sociais, permite que jovens e adultos redescubram outras formas de ocupar o tempo, como a leitura, o desporto ao ar livre ou simplesmente a conversa entre gerações. Sendo eu próprio um entusiasta do ciclismo, sei bem como uma simples volta de bicicleta, sem telemóvel por perto, consegue devolver a clareza mental que os ecrãs raramente proporcionam.
No fundo, o detox digital não deve ser encarado como um sacrifício ou como uma proibição, mas como um exercício de gestão, semelhante ao que fazemos com qualquer outro recurso limitado, seja o tempo, o dinheiro ou a energia. As leis e as proibições ajudam a definir um enquadramento, mas é dentro de cada casa que se constroem os hábitos que realmente perduram.
Este verão pode ser, assim, uma oportunidade para toda a família repensar hábitos, sem grandes discursos, apenas com pequenos gestos práticos que, no final, fazem toda a diferença na qualidade de vida de pais e filhos.