1. Apareceu, recentemente, nos media mais especializados, a notícia de que a moeda chinesa “renminbi” tinha ultrapassado, pela primeira vez, o euro, no financiamento e liquidação do comércio mundial. O renminbi apareceu com uma quota sustentada de 8% com o euro a baixar para 6% (3º lugar), continuando o dólar, líder isolado.
O BCE de Christine Lagarde acusou o facto, sem quantificar o posicionamento relativo. Apenas acentuou a urgência de tomar medidas tendentes a consolidar a moeda europeia, entre elas, a concretização do euro digital, cujo projecto tem, no mínimo, 5 anos, pois foi oficialmente lançado, em Julho de 2021, embora com estudos anteriores, desde 1996.
Mas quando será o euro digital emitido?
Pergunta difícil, ninguém arrisca ou se compromete. Fala-se, talvez, em 2029!
Cerca de 30 anos a amadurecer uma ideia, chegar à conclusão da sua viabilidade, é muito tempo, é o que salta logo como comentário, mas é, sobretudo um excelente indicador dos descalabros que vão tendo lugar na UE! Muita incompetência, desleixo, desentendimentos e falta de garra política!
Mas, um problema existe. Será que as percentagens referidas retratam a realidade, sendo a origem desta informação, a rede SWIFT, uma fonte cada vez de cobertura menos confiável, limitada, porque perdeu representatividade no comércio mundial, como um todo? Já só traduz uma parte das trocas no mundo económico. E, só nessa parte, aquelas percentagens têm validade. Quanto mede a outra parte? A das trocas com moedas locais.
Vejamos:
2. O que é a rede SWIFT? Um sistema do mundo ocidental que já gozou de uma dimensão significativa. Funciona como espécie de endereço postal internacional entre instituições associadas na Society for Worldwide Interbank Finantial Telecomunication (SWIFT), com sede em Bruxelas, cujo objectivo é impulsionar/regular o processamento de transferências de dinheiro entre um número significativo de países e instituições, mas que tem vindo a perder parcelas de mercado por múltiplas razões.
Dois exemplos. Já funcionou com o monopólio decorrente do acordo dos Petrodólares, firmado em 1974 entre os EUA e a Arábia Saudita, que estabelecia a obrigatoriedade da venda do petróleo em dólares, mas que deixou de existir, em Junho de 2024, passando, desde então, a fazer-se em várias outras moedas. As trocas mundiais de petróleo fazem-se, hoje, usando o SWIFT, abaixo de 50%, ou seja, sem recurso ao dólar e ao euro. Segundo, a nível do Sul Global e, nomeadamente, nas transações entre os BRICS e países parceiros, predominam as trocas em moedas locais, porque são alternativas menos caras, mais rápidas e, sobretudo, fora do alvo das sanções económicas, que o Ocidente tem vindo a aplicar a vários países.
As sanções, como “arma de guerra”, intimidaram, provocaram a falta de confiança no mundo ocidental e levaram grande parte dos países do Sul Global a procurar formas alternativas de defesa e, neste contexto, muitas das trocas entre Índia, Rússia, China, Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, são hoje em rupias, rublos, renminbis, reais, rands, etc. É o dólar e o euro, de novo, em perda progressiva nas trocas mundiais.
A tendência será cada vez mais a da redução das trocas em euros e dólares, pois os BRICS estão apostados no desenvolvimento do mBridge, a que já se chama “a arma tecnológica dos BRIC”. É uma plataforma que necessita ainda de aperfeiçoamentos e acordos entre países, mas que está a ter larga adesão, até de países do Sul com relações de amizade com o mundo ocidental. E o que permite o mBridg? Pagamentos na hora, através de moedas digitais, entre Bancos Centrais, muito mais baratos, rápidos e sem intervenção do dólar e do euro.
Daí que aquelas percentagens sejam reais, mas apenas no campo em que intervém o SWIFT, uma parcela cada vez menos representativa do total do comércio mundial, mas ainda assim, significativa. Daí que o euro e o dólar estejam sobrevalorizados, via SWIFT.
Mas, a literatura económica ocidental insiste que esta situação só se passa na área da moeda como meio de troca que, nas outras áreas, tudo permanece igual.
3. Para além de pouco se dizer sobre os efeitos no dólar que também é afectado como o euro e, de forma até mais vulnerável, dada a sua maior importância no comércio mundial, o euro e o dólar estão também a mudar em tudo, ou seja, a perder posição, como “moedas de trânsito”, na economia mundial. Mais difícil de quantificar, mas sabe-se que na economia financeira as transformações estão em curso, quer porque cada vez mais se recorre a reservas em ouro, quer desfazendo activos existentes em títulos do tesouro americanos.
4. Assim, os países do Sul Global, ao tentarem proteger-se das sanções do Ocidente, estão a provocar mudanças estruturais na arquitectura financeira mundial e a provocar uma queda permanente de importância do dólar e do euro, em benefício de outras moedas, entre elas, o renmenbi, o franco suíço, …
No entanto, não imagino a China a pretender que o renminbi venha a desempenhar o papel do dólar. Com a sua visão de alteração da governação mundial, a longo prazo, a China não vai reivindicar para si o papel de policiar o sistema financeiro mundial. Imunidade e Soberania, penso, são os seus grandes objectivos, não admitindo sanções ou bloqueios sobre o seu comércio, nem sobre os restantes países. Não sei qual a quota que expira ter. Mas algo equivalente ou ligeiramente superior ao seu peso real (25%) poderá ser uma meta, o que comparado com a quota dos EUA fica muito aquém.
Admitindo que este mesmo espírito atravessa os países BRICS, a guerra está no terreno.
E colocam-se, então, duas alternativas:
- O Ocidente aceita começar a negociar no sentido da reforma das instituições que comanda, para as ajustar a este novo figurino dando a vários países do Sul um poder na gestão do Mundo, próximo do seu peso real, e assim caminhar-se-ia a prazo para um equilíbrio com vários polos de influência e decisão na governação. Acho, contudo, uma situação muito pouco verosímil na presente conjuntura.
- O Ocidente não cede e o Sul Global, com os BRICS na vanguarda, vai bater-se pela construção de um caminho paralelo e, com altos e baixos no avanço, o Ocidente acabará por colapsar. É o pior caminho, mas aquele que vejo como mais provável.
É evidente que não sei falar de prazos. Nem creio muito que 2035 seja uma data viável.
Mas a continuarem os ganhos de competitividade tecnológicos, designadamente na IA e, todos os dias aparecem avanços, e caminhando o dólar na perda de poder nas duas frentes, ou seja, no mundo ocidental e, através dos BRICS+, em todo o Sul Global, a realidade torna-se tensa, desgastante e terá um fim.
O Ocidente ainda não olhou para dentro para ver que, quanto mais ameaça com sanções e guerras, mais se vulnerabiliza e o problema vai entrando em outro patamar. Trata-se de como consolidar a construção da autoestrada, pois parece que o Sul Global está já à beira da entrada da via rápida.