Uma maioria de britânicos que oscila entre 53% e 58% reconhece que o Brexit foi um erro quando, há dez anos, o ‘sim’ à saída do bloco foi votado por uma pequena maioria de 51,89% (numa participação que chegou aos 72,2%). Entre os jovens dos 18 aos 34 anos essa maioria chega aos 68%. A atual geração de jovens britânicos que não tinha ainda idade para, há dez anos, se pronunciar sobre a matéria, acredita que o Brexit fracassou, com a maioria exigindo uma nova votação para voltar a aderir à União, segundo uma sondagem publicada esta terça-feira. Cerca de 60% da geração Z (entre os 18 e os 28 anos) demonstra profunda insatisfação com a saída do Reino Unido da União Europeia, segundo um estudo encomendado pelo think tank More in Common. Só 9% da nova geração votaria pela saída: entre aqueles que votariam num hipotético segundo referendo, os que diriam ‘sim’ ao regresso são 81%.

A sondagem, dada a conhecer pelo jornal ‘The Guardian’, especifica que a hostilidade em relação à saída do Reino Unido é mais forte entre os adultos mais jovens. Entre os jovens de 18 a 21 anos – que tinham entre seis e nove anos em 2016 – 53% declaram o Brexit um fracasso, enquanto apenas 12% o consideram um sucesso. Um sentimento que se suaviza entre os membros mais velhos da geração Z, de 25 a 28 anos, embora a perspetiva permaneça negativa: 48% consideram o Brexit um fracasso e 20% um sucesso.

Na altura, ficou evidente que foram os britânicos mais velhos e menos ‘urbanos’ que votaram maciçamente no ‘sim’ ao Brexit. O investigador Peter Kellner diz, citado pelo ‘The Guardian’, que a maioria pró-Brexit de 2016 desapareceu: mais de seis milhões de britânicos morreram desde o referendo de 2016, estando potencialmente entre eles os 64% de maiores de 65 anos que em 2016 votaram pela saída – um dado levemente mórbido, mas relevante. Em contrapartida, há cerca de seis milhões de novos eleitores que não tinham idade para votar em 2016 – precisamente os que agora consideram nada terem a agradecer à geração mais velha que os afastou do continente europeu. São estes jovens que indicam esse outro dado: 62% afirmaram que deveria haver um referendo sobre a reentrada na União Europeia.

Um novo referendo?

A questão que se coloca, ou uma delas, é, portanto se pode haver um novo referendo. Do lado britânico, a resposta é ‘sim’: juridicamente, no Reino Unido vigora o princípio da soberania do Parlamento, o que significa que nenhuma lei ou decisão anterior (incluindo o referendo de 2016) é irreversível. Bastaria que o Parlamento britânico aprovasse uma nova legislação convocando uma votação popular.

É do lado europeu, como se compreende, que os obstáculos são maiores. Mesmo que o Reino Unido organizasse um referendo e votasse a favor do regresso, o processo estaria sujeito a condições rígidas impostas pela União Europeia: o Reino Unido teria de submeter uma nova candidatura sob o Artigo 49.º do Tratado da União Europeia, necessitando da aprovação unânime de todos os 27 Estados-membros. Por outro lado, se se desse o caso de essa unanimidade ser conseguida (o que está longe de ser certo), os britânicos não iriam poder contar com os regimes de exceção que conseguiram impor ao longo dos anos em que estiveram ‘dentro’. Os analistas indicam que o mais provável seria que, face à dimensão da economia britânica, a União obrigasse o Reino Unido a aderir ao euro e ao Espaço Schengen (livre circulação de pessoas). Dois temas que, se a nova geração os conhecesse em profundidade, talvez contribuíssem para aplacar a vontade de regressarem.

Os dois lados do Canal da Mancha – que Napoleão Bonaparte usou de forma semelhante àquela que os iranianos estão a usar no Estreito de Ormuz – todos sabem destes problemas. Mas, também sabem que, em princípio, as ilhas britânicas não vão mudar de localização, o mesmo sucedendo ao continente europeus. Dito de outra forma: britânicos e continentais estão condenados, apesar dos ‘napoleões’, a entender-se.

Nesta fase em que a Europa, toda a Europa, converge no entendimento segundo o qual o bloco tem de apostar na sua defesa e segurança em detrimento da antiga postura de permanecer sob o ‘chapéu’ dos Estados Unidos, a ligação entre as duas partes é ainda mais necessária. Até porque o Reino Unido é uma das duas únicas potências nucleares europeias – a França é a outra – o que torna o país fundamental para a segurança comum.

Os primeiros passos

Voltemos às estatísticas: 61% dos britânicos apoiam a estratégia do governo trabalhista, entretanto em fase de substituição, de proceder a uma reaproximação à União Europeia. O processo também já tem um ‘nick-name’ (Brexit Reset) e um roteiro, acordado na cimeira entre a União e o Reino Unido em maio de 2025.

Nenhum dos lados admite que, no final do Brexit Reset, os britânicos serão novamente recebidos na União Europeia, como se fossem uma espécie de filhos pródigos. Mas, se tudo correr bem, será mais ou menos isso. Em um ano, vários progressos foram realizados.

Entre eles, merece destaque o facto de o Reino Unido ter assinado o regresso formal ao programa de intercâmbio de estudantes europeu (o Erasmus), com a reentrada calendarizada para janeiro de 2027. A segurança comum regressou com a partilha de dados. Por outro lado, foi garantido um acordo de acesso recíproco a águas pesqueiras com uma validade de longo prazo (2038), sendo de recordar que, ao longo das difíceis negociações da saída, ficou claro que o setor das pescas iria ser dos mais afetados. Do mesmo modo, foram eliminadas burocracias e controlos físicos sobre o comércio de alimentos e produtos agrícolas, outro dos assuntos polémicos em 2017, e que em determinada altura quase esvaziou as prateleiras das mercearias britânicas. Finalmente, é muito relevante que o Reino Unido tenha sido integrado em projetos do Fundo Europeu de Defesa, facilitando a cooperação militar estratégica em solo europeu.

O processo de aproximação tomou novo alento quando, em julho de 2014, o trabalhista Keir Starmer, destronou mais de uma década de governos conservadores – apesar de, em 2016, o primeiro-ministro conservador, David Cameron, ser anti-Brexit. Agora, o seu sucessor, provavelmente Andy Burnham, terá de manter o assunto na agenda – contando para isso como o apoio já explícito do presidente do Conselho Europeu, o socialista português António Costa.

Dez anos de solidão

O Brexit custou ao Reino Unido pelo menos 6% (até um máximo de 8%) em crescimento económico perdido, segundo uma análise baseada em dados do Banco de Inglaterra, citada pelo jornal ‘The Independent’. Cerca de metade da perda de crescimento terá resultado da incerteza criada após o referendo, com o aumento dos custos e novas barreiras comerciais a responderem pelo restante.

Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra, reconheceu recentemente que o nível de atividade e de crescimento da economia britânica tem sido mais baixo. Segundo Bailey, reduzir a dimensão dos mercados com os quais o país negoceia, incluindo os mercados de exportação, tende a ter um impacto negativo no crescimento. A libra sofreu a maior queda diária em 30 anos logo após o referendo, à medida que os investidores reagiram à incerteza e se afastavam da outrora poderosa City londrina. Mais de 500 mil milhões de libras em ativos financeiros e milhares de empregos altamente qualificados foram transferidos de Londres para centros financeiros europeus como Paris, Frankfurt, Dublin e Amesterdão.

A desvalorização tornou mais caros os bens e serviços importados, alimentando a subida dos preços e pressionando a inflação. A escassez de mão-de-obra aumentou os custos de contratação, o que, a prazo, contribuiu também para o aumento da inflação e para níveis de investimento mais fracos. O investimento privado no Reino Unido estagnou após 2016 devido à incerteza jurídica e à perda de acesso direto ao mercado único europeu. O investimento empresarial no Reino Unido contraiu quase 20% (entre 12% e 18%, conforme as fontes) face ao cenário hipotético em que o país teria permanecido na União Europeia.

O Investimento Direto Estrangeiro (IDE) no Reino Unido também sofreu uma queda severa, atingindo recentemente o valor mais baixo em mais de uma década. Os dados do Department for Business and Trade britânico indicam uma contração de 54% no número de novos projetos financiados por capital estrangeiro em comparação com os níveis registados há dez anos.

As exportações de bens para o mercado europeu registaram uma redução de 14%. As barreiras não alfandegárias implicaram o fim da livre circulação, introduziram controlos alfandegários, regras de origem e certificados fitossanitários, encarecendo os custos operacionais das empresas.

Genericamente, não se consegue encontrar nenhuma consequência positiva do Brexit na frente económica. Até porque, convém não esquecer, o ‘sim’ no referendo foi largamente apoiado pelo presidente norte-americano à época, Donald Trump, que tratou de acenar aos britânicos com um plano de comum de largo espectro com os Estados Unidos, que iria, disse, substituir com vantagem as ligações económicas mantidas com a União Europeia. Esse plano nunca foi concluído e os britânicos tiveram, ao contrário, de interiorizar sem queixas as humilhações que Trump dedicou à primeira-ministra à época, Theresa May.

Para os britânicos é cada vez mais claro que, quando algum deles quer elencar as vantagens conseguidas com o Brexit, a melhor opção é mudar de conversa…