O duplo terramoto que atingiu a Venezuela em 24 de julho passado provocou um impacto económico devastador, com perdas avaliadas em pelo menos 4% do Produto Interno Bruto (PIB), o que corresponde a cerca de 4,45 mil milhões de dólares. Inicialmente, as estimativas apontavam para perdas entre 1% e 7% do PIB, mas após uma avaliação mais detalhada, o valor foi refinado. Este montante é mais de 20 vezes superior ao fundo de emergência de 200 milhões de dólares mobilizado pelo governo venezuelano junto do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O FMI informou que está a acompanhar a situação no terreno e a manter contacto com as autoridades venezuelanas para avaliar as necessidades imediatas. A porta-voz do FMI, Julie Kozack, esclareceu que a instituição não está envolvida na reestruturação da dívida anunciada pela Venezuela, mas permanece em contacto sobre as perspetivas macroeconómicas e está pronta para ajudar na reestruturação, conforme necessário.
A reestruturação da dívida já estava a ser preparada antes do desastre natural, motivada pela mudança política no país. O governo interino, liderado por Delcy Rodríguez, assumiu funções após uma ação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do anterior presidente, Nicolás Maduro. O novo executivo prepara-se para reconhecer um passivo total de 240 mil milhões de dólares, mais de 200% do PIB do país.
A destruição causada pelos sismos complica ainda mais as negociações com os credores internacionais, numa altura em que o país enfrenta uma situação financeira extremamente delicada. Os analistas apontam que o impacto socioeconómico vai exigir um perdão de dívida mais agressivo para financiar a reconstrução nacional, algo que o FMI geralmente não favorece.
O governo anterior não era reconhecido por grande parte dos credores ocidentais devido a sanções judiciais. A entrada em funções do executivo interino permitiu retomar o diálogo formal com os mercados e abriu caminho para a flexibilização das restrições financeiras impostas pelos EUA e pela Europa. O novo governo recuperou o controlo de fundos e reservas no estrangeiro, essenciais para negociar garantias de pagamento.
Entre os detentores de títulos da dívida soberana da Venezuela e da petrolífera estatal PDVSA estão instituições como Fidelity Investments, Morgan Stanley, Allianz Global Investors, RBC BlueBay, Greylock Capital, Broad Reach, Winterbrook Capital e o Fundo Canaima Global Opportunities. A Elliott Management também faz parte da lista, tendo obtido autorização judicial nos EUA para assumir o controlo parcial da refinaria Citgo. Os maiores credores estatais são a China, com uma dívida estimada entre 10 e 20 mil milhões de dólares, e a Rússia, com cerca de 6 mil milhões.
O primeiro terramoto, de magnitude 7,2, foi seguido por uma réplica de magnitude 7,5 menos de um minuto depois, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). O número de vítimas mortais chegou a 1.500, com mais de 3.300 feridos. O USGS emitiu um alerta vermelho para prejuízos económicos, indicando destruição generalizada e necessidade de ampla mobilização de recursos. As projeções apontam para um dos maiores impactos económicos associados a um desastre natural na história recente do país, com danos significativos em infraestruturas, habitação e serviços públicos.