O embaixador português Frederico Silva afastou este sábado o cenário de um regresso massivo de portugueses a Portugal, admitindo, no entanto, que houve “um número muito pequeno” de repatriamentos, após o duplo sismo que em junho abalou a Venezuela.
“O estado de ânimo é de tristeza, de choque, mas de determinação de continuar a viver neste belo país, que de facto acolheu os portugueses desde há décadas, há séculos até, de forma exemplar, integrando-os plenamente. Aqueles que perderam [o modo de vida], querem reconstruir os seus modos de vida, o seu contexto de família e de vida, aqui na Venezuela”, disse à agência Lusa.
O diplomata esteve presente numa iniciativa promovida pela Embaixada de Portugal em Caracas em Naiguatá, La Guaira, de apoio social, cultural e educativo a afetados pelo duplo sismo.
Questionado sobre se já ocorreram alguns repatriamentos, o embaixador explicou que foi “um número muito, muito pequeno” porque, como explicou, a comunidade “portuguesa, lusodescendente, está profundamente integrada na sociedade venezuelana”.
“Aquilo pelo que lutam, aqueles que necessitam, é de reconstruir o seu modo de vida na Venezuela”, apontou.
“Naturalmente, que Portugal estará sempre disposto, caso a caso, como é, aliás, uma linha permanente, em analisar e apoiar pedidos de repatriação, mas não há qualquer tendência, maciça ou significativa nesse sentido, muito pelo contrário, a comunidade portuguesa pretende ficar, continuar a sua epopeia de vida neste país, tão bem-sucedida ao longo de tanto tempo”, acrescentou.
Frederico Silva explicou ainda que a representação de Portugal na Venezuela, a Embaixada e os consulados-gerais, estão “a trabalhar muito ativamente e de forma muito determinada, em primeiro ter um conhecimento detalhado de qual o impacto, de facto, na vida das pessoas, da comunidade, em termos de habitação, em termos de modos de vida”.
“Temos esse trabalho praticamente completo. Estamos [também] em contacto regular com as autoridades venezuelanas, que ao mais alto nível, já nos disseram, estar perfeitamente disponíveis para apoiar de forma ainda mais significativa, especial, a comunidade portuguesa. Estamos a trabalhar nesse sentido para que os nossos compatriotas que foram afetados severamente possam ter a prazo soluções que lhes permitam, com mais facilidade, reconstruir as suas vidas”, disse.
Por outro lado, explicou que gostava de transmitir “uma palavra de esperança”, e “lembrar à comunidade que a herança, o legado que tem” na Venezuela é “brilhante”.
“Nos sete estados que já visitei recolhi, genuinamente, impressões de enorme apreço pelo aporte, pelo contributo da nossa comunidade ao desenvolvimento deste país, pela forma genuína, forte e sincera, com que se integraram na sociedade venezuelana. Esse capital é de tal forma precioso, e vai continuar”, disse.
O diplomata frisou ainda que da parte das entidades portuguesas, em Portugal e na Venezuela, há o compromisso de dar o máximo para fazer tudo aquilo que seja possível fazer para melhorar as estruturas de vida da comunidade, sejam elas quais forem e em que matéria for.
Frederico Silva explicou ainda que a comunidade lusa tem sofrido muito pelos efeitos dos terramotos, a nível económico e social, a nível de emprego e de modo de vida, descrevendo o que Portugal tem vindo a fazer desde o início da crise, com o envio de missões de resgate, de missões de engenheiros, de ajuda humanitária. A Embaixada preparou um programa de eventos relacionados com a questão moral e a questão mental.
“A ideia é criar momentos junto das comunidades mais afetadas, em que, através da arte, da cultura, da educação, da gastronomia, da convivialidade, contribuir para que a nível das almas e dos espíritos haja algum alívio. Sobretudo das crianças e dos jovens”, disse, vincando que o programa conta com o apoio de muitas entidades e organizações luso-venezuelanas.
Na Venezuela residem oficialmente aproximadamente 600.000 portugueses, número que a própria comunidade diz estar aquém da realidade, insistindo que são perto de 1,2 milhões, menos que os 1,5 milhões que existiam no país há uns cinco anos.
O número de portugueses e lusodescendentes mortos no duplo sismo que atingiu a Venezuela a 24 de junho atingiu os 138, indicou o mais recente balanço do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português.
Dos portugueses e lusodescendentes mortos, 109 adultos e 29 menores, 118 tinham também a nacionalidade venezuelana.