
Os ensaios clínicos são o ponto de passagem obrigatório entre a investigação científica e a prática médica. É neles que se testam novos medicamentos, terapias e abordagens, garantindo segurança, eficácia e — muitas vezes — acesso antecipado dos doentes a tratamentos inovadores. “A sua relevância é ainda maior para Portugal num contexto em que a procura de cuidados de sáude continua a crescer.
Em 2025, Portugal atingiu um máximo histórico de 11,42 milhões de residentes e, em abril de 2026, registava 10,79 milhões de utentes inscritos no SNS. A par deste crescimento, o envelhecimento da população intensifica a prevalência de doenças crónicas e a necessidade de novas respostas terapêuticas”, salienta Helena Freitas, diretora-geral da Sanofi Portugal, defendendo que os ensaios clínicos permitem responder a estes desafios, atraindo investimento, reforçando a capacidade dos hospitais e centros de investigação, promovendo a qualificação dos profissionais de saúde e consolidando Portugal como um destino competitivo para a investigação biomédica.
Segundo o Barómetro de Inovação Clínica da NTT DATA, essa ambição depende do reforço dos Centros de Investigação Clínica, da sua autonomia e da transformação digital do ecossistema. “Portugal está a melhorar em termos de ensaios clínicos, e deve manter esse esforço, contudo continua a uma distância significativa de outros países da União Europeia”, afirma Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos.
“Temos condições para fazer mais e melhor — há uma oportunidade clara para Portugal se afirmar neste domínio, se conseguirmos reduzir o excesso de burocracia, nomeadamente os tempos de autorização, que podem afastar o investimento internacional e criar condições mais atrativas para a investigação clínica.”
Portugal tem a correr 600 ensaios clínicos e 200 novas autorizações em curso. Cresceu, mas a burocracia e a espera pelas autorizações afasta o investimento internacional. de 200 novas autorizações por ano, um sinal claro de crescimento num setor crítico para a inovação em saúde. Ainda assim, o país permanece longe dos principais polos europeus.
“A nível geográfico, a Alemanha lidera com 18,21%, enquanto a Espanha está projetada para expandir a um CAGR de 6,78% até 2031. A oncologia lidera a área terapêutica (35,9%%) e as farmacêuticas retiveram 59,2% de participação no tamanho do mercado”, aponta o estudo Tamanho e participação do mercado de ensaios clínicos na Europa – Tendências de crescimento e previsão 2026-2031, da Mordor Intelligence.
Quanto a valores, o mesmo relatório diz que este mercado deverá ultrapassar os 23,1 mil milhões de euros já em 2026 e em 2031 valerá 31,8 mil milhões de euros com uma taxa média de crescimento de 6,55%, “impulsionada pelo investimento em I&D, pela evolução do enquadramento regulatório e pela adoção de modelos descentralizados”.
Quanto a Portugal, apesar da evolução, ainda não acompanha este ritmo nem é considerado como país de primeira escolha. Para Helena Freitas, os ensaios clínicos são fundamentais para transformar investigação científica em tratamentos inovadores, seguros e eficazes, permitindo aos doentes o acesso precoce a novas terapêuticas e contribuindo para melhorar os resultados em saúde.
“São também um elemento essencial para o desenvolvimento de conhecimento científico e para a modernização do sistema de saúde”, considera. O Bastonário da Ordem dos Médicos aponta dois desafios centrais: foco no doente e redução da burocracia. “Apesar disso, os sinais são positivos. O número de ensaios ativos aumentou nos últimos anos, refletindo maior capacidade dos centros nacionais e uma crescente integração em redes internacionais”.
Para Carlos Cortes, o desafio agora é acelerar. Reduzir tempos, reforçar coordenação institucional e alinhar a investigação com as necessidades do sistema de saúde. Estes pontos serão determinantes para que Portugal deixe de ser apenas um país em crescimento — e passe a ser “um destino de primeira linha. Sempre com o foco em melhorar a vida das pessoas”, conclui.
