Já não há qualquer dúvida de que a guerra total entre os Estados Unidos e o Irão está a acontecer. Os sinais são os mais variados – desde logo o aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais, que no caso do brent (referência para a Europa) voltou a ultrapassar os 100 dólares. É de referir que esta barreira só foi atingida mais de dez dias depois de os Estados Unidos terem regressado ao conflito armado – como se os mercados tivessem perdido em definitivo a esperança de uma solução pacífica.

Para o fim dessa esperança contribuiu em muito a convocação da violência dos houthis por parte do Irão. Na prática, os ataques que os houthis fizerem na região da entrada do Mar Vermelho implicam que o Canal do Suez passa a estar intransitável. Para que não restem dúvidas do sucesso da operação conjunta, os iranianos já aconselharam os houthis a usarem o moderno arsenal que há mais de uma década foi sendo transferido para o Iémen.

O fluxo começou em 2009 e intensificou-se em 2014. Em abril de 2015, a ONU chegou a aprovar um embargo oficial de armas contra o grupo rebelde, mas, nos dez anos seguintes, as agências de inteligência ocidentais, como a Agência de Inteligência de Defesa dos EUA (DIA), confirmam que foram intercetadas mais de 20 embarcações de contrabando iranianas carregadas com componentes de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro, drones e milhares de espingardas de assalto destinados ao grupo.

Os houthis alegaram ter atingido esta quinta-feira dois petroleiros sauditas que violavam o bloqueio a Bab el-Mandeb, o que levou o presidente dos Esttados Unidos a alertar que “punição militar severa” seria infligida tanto ao Irão como aos houthis se se verificarem novos ataques. Trump já terá percebido que, naquele lado do mundo, os seus desejos são sistematicamente desprezados.

 

Arábia nuclear

Entretanto, o ocidente foi surpreendido pela assinatura de um acordo de entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita em torno do nuclear. O pacto, considerado histórico, tem uma duração de 30 anos e for formalizado com o nome ‘Acordo 123’. Foi subscrito pelo secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, e pelo ministro da Energia saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman. O tratado estabelece a base jurídica para uma parceria na qual empresas norte-americanas fornecerão tecnologia e conhecimento para o desenvolvimento do programa atómico civil de Riad. Tal como no caso do Irão, poucos acreditam que o programa não vai cruzar a linha vermelha entre o nuclear civil e o militar.

A outra potência nuclear da região, Israel, celebrou o acordo, mas aparentemente foi apenas para consumo mediático. De facto, Avigdor Lieberman e Benny Gantz, dois ex-ministros da Defesa do pais, manifestaram séria apreensão face à possibilidade de a Arábia Saudita obter capacidades de enriquecimento de urânio no seu próprio território, temendo os riscos de uma corrida às armas nucleares na região.

 

Onde está Israel?

A única incógnita no meio do aumento exponencial do risco de guerra total no Irão é o papel que assumirá Israel. Desde que os ataques recomeçaram, há quase duas semanas, que as forças israelitas se têm mantido à distância – depois de terem sido as primeiras a incentivar os ataques de 28 de fevereiro. O Irão também tem manifestado preocupação em não atacar o solo israelita – ao contrário do que faz com vários países da região. Mas os analistas sabem que qualquer ‘desculpa’ é boa para Israel voltar à guerra. O primeiro-ministro não o esconde: sabe que uma solução para o Líbano só será viável se o atual regime de Teerão desaparecer.

A próxima semana será crucial para o mundo entender em que sentido vai a guerra no Médio Oriente. Importante, nesse contexto, é perceber-se até que ponto vai aumentar a contestação contra a guerra nos próprios Estados Unidos. A imagem do secretário de Guerra, o inenarrável Pete Hegseth, a ser interrompido em pleno congresso pode ser um indicador de que alguma coisa está a mudar.