Em Portugal, existe uma elevada intolerância ao erro, o que poderia constituir uma importante qualidade. Poderia fazer com que fôssemos especialmente cuidadosos no planeamento, para garantir que tudo estará preparado para o previsível e até o imprevisível; que em toda a parte tudo funcionasse na perfeição; que fôssemos conscienciosos, com uma pontualidade irrepreensível, etc., etc.

Em vez disso, aquela característica constitui um grande defeito, com consequências sobretudo negativas: um medo de cometer erros que conduz a evitar tomar decisões, gerando demoras e paralisias nos mais variados sectores; estigmatiza o insucesso empresarial, criando obstáculos ao empreendedorismo e ao desenvolvimento económico; dificuldade extrema em reconhecer erros, que conduz à sua perpetuação, porque uma correcção seria assumir que tinha havido erros no passado; padrão institucional generalizado de encobrir erros, negando-os perante as mais fortes evidências, etc., etc.

Temos assim uma relação paradoxal: é a nossa elevada intolerância ao erro que os multiplica e promove a paralisia.

Imaginemos a aplicação deste padrão a um movimento voluntário de aumento da transparência por parte do governo ou de uma instituição (pública ou privada). Num primeiro momento, o aumento da transparência não é especialmente aplaudido, mas qualquer erro que venha a ser divulgado em consequência desta nova abertura, será duramente castigado. Ou seja, qual é o incentivo para aumentar a transparência? Nenhum.

Vivemos agora no imediatismo das redes sociais, que se alimentam do “isco de raiva”, de que já aqui falei, que consiste em dar preferência a um relato escandalizado de um facto (assumindo que é verdadeiro), do que a uma descrição moderada e matizada deste. É-se tentado a afirmar que a principal diferença face aos linchamentos populares do século XVI (como o massacre de Lisboa de 1506) é que as vítimas são agora imoladas num fogo virtual, embora pareça que a raiva assassina pouco difere.

Este mundo de excesso de indignação só pode agravar a nossa antiga intolerância ao erro. Quando precisávamos de corrigir este problema, parece que o estamos a aprofundar.

Reconheço que esta questão é difícil de tratar e, por isso, não tenho grande propostas de solução, para além de uma sugestão, que poderá ser pouco atrativa e ter baixa adesão. Dado que precisamos cada vez mais de moderados no actual mundo de excesso de excitação, sugiro ao leitor que, sempre que sinta o impulso de se indignar, pense duas vezes: “será que estou a cair numa armadilha, só para atrair mais gostos e mais partilhas?”