Quem não conhece Marco Polo, o famoso viajante veneziano que, nos finais do século XIII, andou 24 anos pelo Oriente e Ásia Central, ao longo da rota da seda, e costa oriental de África? O seu nome tornou-se sinónimo de “viajante” e não o invocamos em vão, pois nesta conversa temos, também, um inveterado viajante. Ainda não era gente e já Rui Pinto Lopes viajava. “Estava na barriga da minha mãe”, conta ao JE, aquando da primeira viagem organizada pelo pai, Joaquim Pinto Lopes, fundador da Pinto Lopes Viagens. Dezassete pessoas, um autocarro e muita vontade de romper fronteiras. O destino? Paris. Estávamos em 1973 e viajar era um sonho partilhado por esse grupo de amigos. O anseio de ver mundo. Como diz Rui Pinto Lopes, que lidera a empresa com os seus dois irmãos, “a Pinto Lopes não vende viagens, vende sonhos.”

“O meu pai via em cada cliente um amigo, em cada colaborador um membro da família.” É esse o espírito Pinto Lopes, questionamos. “Eu continuo a viajar e a acompanhar alguns grupos com guia. Continuo a lidar com os clientes nos balcões. Reconhecem-me e eu reconheço muitos deles, ou porque viajaram comigo ou porque já estivemos a conversar antes. A porta do meu gabinete está sempre aberta.” Quem entra para a empresa passa o primeiro dia a debater “o que é isso do espírito Pinto Lopes”. Parece abstrato, mas não é. Porquê? “Porque este ramo da família Pinto Lopes inicia-se nos negócios através do transporte de passageiros, em 1870, com o meu tetravô. Passou de geração em geração e as várias empresas do grupo contam já com cerca de 120 trabalhadores nos quadros. No caso da Pinto Lopes Viagens somos 80, a que se somam 80 guias, colaboradores externos.

E que qualidades deve ter um guia da Pinto Lopes? “Nem sempre é fácil transmitir a um guia que nunca trabalhou connosco que vai desempenhar um papel que é muito mais do que ser um guia. É um confidente, é um amigo, é alguém que está ali para fazer parte da solução, do sucesso do projeto. E não para debitar informação turística.” Até porque isso nada tem de diferenciador. “Basta usar a inteligência artificial num telemóvel e temos a informação toda”. E insiste. “O guia é a vertente humana e um elemento-chave da viagem. Se alguém perde a documentação ou a carteira, o guia vai ajudar a resolver o problema. Se for preciso, vai adiantar fundos. O cliente tem é de estar bem.” Os níveis de satisfação são elevados, confirma ao JE. “Temos terceiras gerações a viajar connosco”, realça. “Há um esforço gigante da equipa para que realmente viajar com a Pinto Lopes seja a concretização de um sonho.”

A Pinto Lopes tem a particularidade de ser um operador turístico e uma agência de viagens. “Somos um operador porque o produto que vendemos é feito por nós e vendido diretamente ao cliente final”, refere Rui. “Não só permite entender as necessidades do cliente como, em caso de reação, somos muito ágeis, porque não temos intermediários, falamos diretamente com o cliente final. E o contrário também, é muito fácil para a o cliente final comunicar connosco.” A prova disso, diz, é que apesar de a empresa ter crescido, a ligação com os clientes continua muito próxima. “Ligam-nos para fazer sugestões e, muitas vezes, veem essas sugestões refletidas nas nossas viagens, nos destinos, na qualidade do serviço.” Outro fator de peso na escolha dos clientes é a segurança. Uma garantia que Rui diz nunca ter falhado até hoje e que é imagem de marca da Pinto Lopes.

Viagens com autores e especialistas

A empresa trabalha com grupos relativamente pequenos. Um dos projetos, o “Small Group Travels”, envolve entre 8 e 15 pessoas. No caso das “Viagens com Autor” – na companhia de José Luís Peixoto, Raquel Ochoa ou Gonçalo Cadilhe – e com especialistas – historiadores, arqueólogos, investigadores –, os grupos oscilam entre 15 e 25 pessoas, consoante o destino e o projeto. Outro exemplo, prestes a levantar voo este verão, são as montanhas Pamir, no Tajiquistão. O limite são 15 pessoas.

O catálogo de 2026 da Pinto Lopes, que celebrou 50 anos em 2023, é vasto. Está disponível online e também em revista impressa. Tem 62 páginas e revela o essencial, aguçando a vontade de saber mais. No tempo de Joaquim Pinto Lopes, a meta era adicionar um país por ano. Numa segunda fase, passaram a criar novos destinos dentro do mesmo país. Exemplos? Começando pela Europa e, mais especificamente, por Itália, a empresa tem hoje cerca de 30 itinerários diferentes, ao passo que, no Reino Unido, há 12 itinerários disponíveis. O mesmo número na Índia (12) e 8 na China, ou seja, muito além da chamada “China clássica”.

Mas seria demasiado confortável não inovar. Até porque, como sublinha Rui pinto Lopes, têm os melhores clientes do mundo, i.e., “querem viajar, querem cultura, segurança e ser surpreendidos.” O perfil varia, mas são muitos os professores, médicos, bancários e advogados. Os destinos menos convencionais, por outro lado, atraem um público cada vez mais eclético. Este verão, regressam a Leh, capital de Ladakh, a 3500 metros de altitude, no cruzamento da histórica Rota da Seda, num circuito de 23 dias na Índia. Ou o fim de ano em Harbin, a cidade do gelo, na China. O entusiasmo de Rui é constante, mas sobe uns degraus ao falar em destinos menos óbvios, como o Cazaquistão – “um país que está todo ligado pelo comboio de alta velocidade e onde tudo funciona ao minuto” –, o Ruanda ou a Etiópia.

“Quem chega ao Ruanda tem de esquecer que está em África, ou que vai encontrar aquela África do pó, da terra seca, o subdesenvolvimento. Nada disso. É um país que, ainda há 3 meses, recebeu um prémio por incorporação de inteligência artificial no sistema da autoridade tributária. Um país onde eu chego a um monumento, pago a entrada, dou o meu email e, passado 30 segundos, recebo a fatura eletrónica. Estamos no meio de África, num país que ainda há poucas décadas sofreu um genocídio.” Quanto à Etiópia, o adjetivo sai de rajada. “É um país brutal!” E explica que vai regressar em breve para estudar a depressão Danakil, uma zona de deserto, que será incluída no futuro circuito Eritreia-Etiópia-Djibouti-Somaliland.

Mais. “Nesta busca incessante por novos destinos e novos desafios, a Pinto Lopes vai abrir-se a novos países em África. Vamos ter viagens para a Guiné Equatorial, República Centro Africana, Chade, Camarões, Níger, Nigéria, Mali e Burkina Faso. Estamos numa fase de expansão.” O impacto da crise no Médio Oriente, porém, não é negligenciado. “O turismo vai ressentir-se muito no 2º semestre. Tudo o que eram reservas pagas até à guerra, as pessoas vão viajar, tudo o que não era, vão pensar duas ou quatro vezes.” Rui Pinto Lopes não guarda segredo sobre as estimativas. “Agosto e setembro vão ser meses com quebra, e eu estimo que o segundo semestre possa ter uma quebra, comparado com 2025, de 10- 15%. Estimamos que seja um ano de regressão, acima de 2024 mas inferior a 2025. E não será tão mau, porque o primeiro semestre foi positivo, e isso atenua o problema.”

Em contrapartida, antecipa um último trimestre positivo. Não haverá quebras desta grandeza, salienta, e como fecharam o primeiro semestre 3% acima do ano passado, a quebra no 2º semestre não será superior a 10, 15%, estima Rui. “Em 2025, números redondos, fizemos cerca de 1.000 grupos, 30.000 passageiros, e uma faturação muito próxima dos 65 milhões de euros. Somos uma empresa PME Excelência e vamos continuar a crescer”.