O homem que era obcecado com os detalhes, o realizador ‘control freak’ que nos deixou filmes muitas vezes inclassificáveis, como “Dr. Estranho Amor”, “The Shining”, “Laranja Mecânica” ou “2001: Odisseia no Espaço”, que depurava o humor com subtilezas e elevadas doses de soda cáustica, e que chegou a prever o futuro, não se ficou pela câmara de filmar. Usou outra câmara, a fotográfica, para ler as idiossincrasias do ser humano. Falamos de Stanley Kubrick e das suas primeiras fotografias, produzidas na década de 1940, prova precoce desse olhar atento, acutilante e certeiro.

Agora, um novo acervo de 18 dessas imagens será exibido pela primeira vez na próxima semana, quando a Galeria Duncan Miller, em Los Angeles, apresentar esta ‘descoberta’, juntamente com obras da fotógrafa contemporânea Jacqueline Woods, no âmbito de “The Photography Show”, no Park Avenue Armory, na Big Apple.

O dia a dia da metrópole pela lente de Kubrick que, ainda no liceu, integrou a equipa da revista “Look”, uma publicação focada na fotografia. Cresceu no Bronx e terminou o liceu em 1945. Não tinha notas para entrar na universidade, achava ele, e agarrou-se à oportunidade que era a “Look”. Durante cinco anos, Kubrick documentou para a revista temas como um jovem engraxador, o pugilista Walter Cartier e a corista Rosemary Williams. Saiu da revista em 1951, o mesmo ano em que realizou as suas duas primeiras curtas-metragens documentais e em que pôs fim ao casamento de cinco anos com a namorada do liceu.

Em 2018, foram publicadas 120 fotografias do período em que Kubrick esteve na “Look” que serviram de base a uma exposição itinerante, “Through A Different Lens”, inaugurada no Museu da Cidade de Nova Iorque. Na ocasião, a Taschen lançou um livro de capa dura com o mesmo título. Agora, a Galeria Duncan Miller leva a “The Photography Show” 18 fotos de Kubrick nunca exibidas publicamente. Todas elas foram tiradas no metro de Nova Iorque, entre a meia-noite e as 6h da manhã.

A Duncan Miller tem um projeto para colecionadores de fotografia chamado “Your Daily Photo”, desde 2012, e todas as manhãs os assinantes da sua newsletter recebem um e-mail com várias fotografias disponíveis, a preços especiais, para os primeiros compradores. As aquisições são constantes para poder ampliar o acervo fotográfico e assim sustentar o projeto. Daniel Miller, diretor da galeria, explicou à imprensa americana que “estas fotografias de Kubrick faziam parte de uma compra recente”, embora não estivessem detalhadas. No entanto, estão entre as primeiras imagens que o realizador fez para a revista “Look”, informação corroborada pelo ensaio fotográfico de Kubrick, que acompanhava os seus ‘instantâneos’ no metro. “As carruagens do metro de Nova Iorque são uma sala de leitura sobre rodas, um ponto de encontro para os namorados e, depois das 23h00, um hostel”.

Quanto mais observa, mais Kubrick vê. “Ele usava a câmara pendurada ao pescoço e tinha um disparador remoto com fio no bolso do casaco, o que lhe permitia fotografar as pessoas sem que estas se apercebessem. E era habitual usar rolos inteiros de filme para captar apenas algumas imagens mais impactantes”, referiu Miller na apresentação da mostra. Ninguém diria que o realizador ‘control freak’ conseguiria, alguma vez, abdicar do controlo total sobre o que queria capturar. Esta exposição mostra precisamente isso: são os seus ‘modelos’ quem assume o protagonismo… e o controlo da situação.

“The Photography Show” pode ser vista de 22 a 26 de abril, no Park Avenue Armory, 643 Park Avenue, Nova Iorque.