As empresas portuguesas “estão muito melhores e recomendam-se”, e Portugal, depois de ter sido a “economia do ano de 2025”, tem tudo para fixar-se no “top 3” em 2026. A convicção é de Gonçalo Regalado, CEO do Banco Português de Fomento (BPF), partilhada em entrevista ao programa Conversa Capital, da Antena 1 e do Jornal de Negócios.
Apesar de reconhecer que o aumento das taxas de juro e a crise no Médio Oriente estão a fazer com que vários investimentos fiquem “à espera do melhor momento para arrancar”, o líder do BPF faz um balanço francamente positivo da saúde financeira do tecido empresarial do país e da própria atividade da instituição, destacando a eficácia e a qualidade do crédito concedido nos últimos tempos.
Apenas 16 milhões em “dificuldade” num universo de 11 mil milhões injetados
Demonstrando grande satisfação com a atual taxa de incumprimentos por comparação com o passado, Gonçalo Regalado revelou que, nos últimos 18 meses, o BPF concedeu 11 mil milhões de euros a 32 mil empresas. Desse montante robusto de crédito atribuído, “há apenas 16 milhões com alguma dificuldade”, sinalizando que estes casos se encontram ainda fora do processo de recuperação. “Isto é o que é fazer bem feito”, sublinhou.
O cenário contrasta com o crédito malparado herdado do passado, avaliado em 1.050 milhões de euros e correspondente a 16 mil créditos de 13 mil empresas. Deste bolo, o CEO revelou que cerca de 400 milhões de euros já foram dados como perdidos, mas garantiu o compromisso de tentar recuperar o remanescente para evitar que este valor venha a pesar na dívida pública.
“Fundo Fundos Portugal” sucede ao Fundo de Capitalização e Resiliência em 2027
Olhando para o futuro dos instrumentos de apoio financeiro, Gonçalo Regalado aproveitou a entrevista para levantar o véu sobre o mecanismo que vai substituir o Fundo de Capitalização e Resiliência (que deverá ser executado na totalidade). Chamar-se-á “Fundo Fundos Portugal” e estará operacional em 2027. O líder do BPF adiantou que este novo fundo arrancarará com um capital superior aos 1.050 milhões de euros do seu antecessor.
Ao longo da entrevista, o CEO abordou também o apoio às regiões afetadas pelas tempestades do início do ano, afirmando que estas estão a entrar na “primavera da reconstrução”. Rejeitando críticas de atrasos, Regalado revelou que, das 10 mil candidaturas apresentadas pelas empresas, mais de 8 mil já foram aprovadas, traduzindo-se na atribuição de mais de 1.600 milhões de euros. Com uma taxa de rejeição inferior a 3%, o responsável acredita que a verba total prevista de 2 mil milhões de euros “será excedentária”. Já no concurso de 20 milhões de subvenções via IFIC para a modernização agrícola nestas regiões, a procura superou as expectativas, registando-se 70 milhões de euros em candidaturas.
No que toca à habitação — onde o BPF dispõe de 4 mil milhões de euros até 2028 para apoiar a construção e reabilitação a custos acessíveis —, o gestor confirmou uma “boa procura” por parte dos municípios, embora tenha deixado um aviso realista: “Não há uma bala de ouro para o problema da habitação”.
Duras críticas à regulação: “Temos mais gente a supervisionar do que a trabalhar”
Confrontado com as críticas recentemente apontadas pelo Tribunal de Contas, Gonçalo Regalado foi taxativo ao afirmar que não as compreende, lembrando que o BPF não se insere na esfera pública e não conta para o défice ou para a dívida do Estado. Embora assegure que todas as auditorias são bem-vindas, lamentou o excesso de burocracia que envolve a instituição, classificando o BPF como a entidade em Portugal com mais reguladores a supervisionar.
“Temos mais gente a regular, a supervisionar, a opinar do que a trabalhar”, criticou, acrescentando que as diferentes regulações muitas vezes “não jogam” entre si. “Somos nós que estamos no relvado para ganhar pela seleção nacional de Portugal… Venham fazer melhor”, desafiou.
O CEO estendeu as críticas ao panorama geral do país, defendendo que “Portugal não precisa de opinadores e de um conjunto de recomendadores que não tem provas dadas”, rematando que o atual sistema assenta num “modelo de super alheamento da realidade”.