A instabilidade geopolítica no Golfo Pérsico está a alterar profundamente os padrões de viagem a nível mundial, com destinos como Portugal a beneficiarem da redistribuição da procura turística, segundo um estudo da consultora McKinsey & Company divulgado esta terça-feira.

O estudo “How conflict in the Gulf is remapping global travel” revela que a segurança assume um papel crescente nas decisões dos viajantes, com entre 60% e 70% dos consumidores nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha a afirmarem que ajustam os planos de férias devido à instabilidade geopolítica.

A procura por viagens mantém-se resiliente apesar da incerteza. Num inquérito realizado pela McKinsey junto de consumidores italianos, 74% afirmaram pretender viajar durante o verão de 2026. No entanto 63% ainda não tinham concluído as reservas, refletindo uma preferência por decisões mais próximas da data de partida. Além disso, 56% indicaram que os planos tinham sido afetados pela situação geopolítica, embora apenas 3% tenham cancelado totalmente as viagens.

Portugal surge entre os mercados que registam sinais positivos. Entre março e abril de 2026, o Algarve registou um aumento de 5,7 pontos percentuais na ocupação hoteleira face ao período homólogo do ano anterior, seguido pelo Porto (+3,3 p.p.) e pelo Alentejo (+2,7 p.p.).

A reorganização dos fluxos turísticos internacionais torna-se particularmente visível na conectividade aérea. No mesmo período, o número de passageiros internacionais em ligação através dos principais hubs do Médio Oriente diminuiu cerca de 5,1 milhões, o equivalente a uma quebra de aproximadamente 53%.

Em resposta, companhias aéreas e passageiros estão a recorrer cada vez mais a rotas alternativas e a ligações diretas, acelerando a reorganização das redes globais de transporte aéreo. A existência de voos diretos surge, segundo a McKinsey, entre os fatores com maior influência na capacidade de atrair visitantes internacionais de lazer.

A pressão sobre os custos operacionais da aviação constitui outro dos efeitos da atual conjuntura. Num cenário ilustrativo analisado pela consultora, um voo entre Londres e Bombaim poderá registar um aumento de custos até 63% devido às restrições de espaço aéreo e ao aumento dos preços do combustível. Caso estes custos sejam repercutidos nos consumidores, os preços dos bilhetes poderão aumentar entre 13% e 44%, dependendo da rota e da política comercial das transportadoras.

Nos mercados mais expostos ao conflito, os impactos são particularmente significativos. Nos Emirados Árabes Unidos, o Dubai apresenta a maior redução observada, com uma quebra de 75% na receita hoteleira — equivalente a uma perda de 1,8 mil milhões de dólares — entre março e abril de 2026, seguido por Abu Dhabi (-49%). No Qatar, registou-se uma queda de 43% e, na Arábia Saudita, em Riade, a redução foi de 42%.

Além de Portugal, países como Marrocos e Espanha também beneficiaram da redistribuição da procura, com a ocupação hoteleira a crescer em Tânger (+9,9 p.p.), Alicante (+8,0 p.p.), Agadir (+7,5 p.p.) e Marbella (+7,1 p.p.).

A McKinsey sublinha que, num mercado global em transformação, compreender estas mudanças será cada vez mais importante para destinos, operadores turísticos e companhias aéreas que procuram responder à evolução das preferências dos viajantes.