O estudo ‘Por uma Europa mais competitiva – o contributo da parceria franco-portuguesa’, promovido pelos Conselheiros do Comércio Externo da França (CCEF) em parceria com a Eurogroup Consulting Portugal e apresentado durante a 9.ª Conferência Económica Franco-Portuguesa, mostra que a relação entre Portugal e França evoluiu de uma lógica tradicional de comércio e investimento, para um modelo de integração produtiva, em que ambos os países participam cada vez mais nas mesmas cadeias de valor, centros de competência e projetos industriais de dimensão europeia.
“Portugal deixou de ser apenas um destino competitivo para investimento estrangeiro baseado em custos mais baixos. Hoje, acolhe funções estratégicas, centros de engenharia, tecnologia e operações críticas para alguns dos maiores grupos franceses, numa transformação que está a alterar a natureza da relação económica entre os dois países”, refere comunicado sobre o estudo.
França é o segundo maior investidor estrangeiro em Portugal, o terceiro destino das exportações portuguesas e o terceiro fornecedor comercial do país. Com cerca de 18,8 mil milhões de euros em investimento direto estrangeiro, mais de 1.700 filiais e aproximadamente 130 mil postos de trabalho, a presença francesa está ancorada na estrutura económica portuguesa de forma que não se desfaz com ciclos conjunturais.
“A importância da presença francesa já não se mede apenas pelo capital investido e Portugal deixou de ser apenas uma base de execução. A densidade da relação deixou de se caracterizar pelo que circula entre os dois países, mas pelo que passou a ser organizado, produzido e decidido em torno desta nova realidade”.
Casos como os da Natixis, Euronext, Airbus ou BNP Paribas mostram essa mudança. As empresas concentram aqui funções de engenharia, decisão, tecnologia e competências que têm relevância estratégica para os seus perímetros europeus. No Porto, a Natixis concentra mais de três mil profissionais em áreas estratégicas anteriormente localizadas em Paris. A Euronext transformou Lisboa e Porto na sua terceira maior plataforma mundial. Na indústria aeronáutica, a Airbus estima que um quarto da sua produção global de subconjuntos aeronáuticos seja fabricado em Portugal já em 2026.
“Se a relação já é estrutural no vetor França–Portugal, continua com margem de densificação no vetor Portugal–França, o que confirma potencial de maior penetração económica das empresas portuguesas no mercado francês”. França já absorve cerca de 12% das exportações portuguesas, o que a coloca na 3.a posição entre os destinos das exportações nacionais (AICEP 2024). São cerca de 16,3 mil milhões de euros de exportações, num perfil em que os bens industriais têm peso dominante: cerca de 55% das exportações de bens concentram-se em material de transporte, máquinas, equipamentos e metais (GEE 2024). Nos serviços, para além de viagens e turismo, ganham peso atividades como centros de serviços partilhados, operações financeiras, tecnologia, engenharia e outras funções de suporte corporativo.
A investigação identifica três fatores que explicam a crescente atratividade de Portugal para investidores e empresas francesas. A primeira é o país com a estabilidade institucional, enquadramento europeu e abertura ao exterior que conferem previsibilidade a investidores com alternativas. A segunda são as pessoas: Portugal tem uma das populações mais qualificadas da Europa do Sul, com 43% dos jovens entre os 25 e os 34 anos a deter ensino superior, um peso de perfis nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, acima da média europeia e um nível de proficiência em inglês que coloca o país em sexto lugar mundial — muito à frente de França, que surge em quadragésimo nono. Os custos são ainda competitivos face à Europa Ocidental, mas o argumento já não é apenas esse. A terceira dimensão é a plataforma: uma posição atlântica privilegiada, uma rede única de ligação ao espaço lusófono, infraestruturas como Sines e uma matriz energética onde as fontes renováveis já representam mais de 70% do consumo elétrico.
“A estes elementos soma-se uma qualidade de vida que surge, nos dados europeus de 2024, acima de França, Espanha e Alemanha — um fator que conta crescentemente nas decisões de localização de talento e de funções”.
O estudo defende que o próximo ciclo da relação bilateral deve concentrar-se em áreas onde Portugal e França apresentam vantagens complementares e identifica três vetores. O primeiro é a transição energética. Com um mix elétrico em que as renováveis já cobrem 71% do consumo e com a infraestrutura única de Sines, Portugal tem os ingredientes para se tornar uma plataforma digital e energética de escala europeia. A complementaridade com grupos industriais franceses que enfrentam necessidades reais de descarbonização é estrutural e ainda subaproveitada. O segundo vetor é a densificação dos clusters industriais e de engenharia já existentes. A presença da Airbus, da Renault, da Faurecia ou da Transdev demonstra que a base produtiva existe. O que falta é transformar essa presença em ecossistema: mais fornecedores integrados, mais I&D, mais funções de engenharia e produto que permitam subir na cadeia de valor. O terceiro vetor é a atuação conjunta em mercados terceiros, nomeadamente lusófonos. A combinação da rede histórica e cultural portuguesa em África e na América Latina, com a presença global de grandes grupos franceses, cria uma plataforma de criação de valor que nenhum dos dois países consegue replicar sozinho.
“A conclusão é clara: a relação económica entre Portugal e França já não deve ser lida apenas pelos fluxos de comércio ou investimento que gera”. Mas os travões que persistem ou os bloqueios estruturais que penalizam a competitividade de Portugal. “Apesar dos progressos registados, o estudo alerta que o principal risco para o próximo ciclo de crescimento da relação económica franco-portuguesa não está na falta de ativos ou de oportunidades. Está na capacidade de execução”.
Os entrevistados identificam quatro bloqueios estruturais que continuam a penalizar a competitividade do país. A morosidade judicial e a imprevisibilidade regulatória surgem como o primeiro obstáculo, uma vez que elevam o risco percebido por investidores que têm alternativas europeias e que precisam de previsibilidade para tomar decisões de longo prazo. Em segundo lugar apontam o licenciamento lento, com resultados imprevisíveis, que afeta sobretudo projetos industriais e de infraestruturas. Na lista dos travões que penalizam a competitividade Portugal surgem a seguir as fragilidades em ferrovia e mobilidade, que limitam a capacidade de Portugal se integrar em cadeias de valor mais sofisticadas e de atrair talento com mobilidade quotidiana eficaz. Por fim, a pressão crescente sobre a retenção de talento qualificado. Portugal passou de um mercado de empregadores para um mercado de colaboradores, num contexto em que a expansão de hubs internacionais aumentou a procura sem que a oferta de habitação acessível e transportes eficazes acompanhasse esse crescimento.
O estudo fecha com uma agenda de ação que propõe cinco prioridades concretas: orientar a relação para setores e funções de maior valor acrescentado; ligar talento, habitação e mobilidade numa mesma política de competitividade; acelerar a integração das PME portuguesas em cadeias de valor francesas e apoiar estratégias de entrada direta no mercado francês; concentrar esforço em clusters onde energia, talento e inovação já se combinam; e remover bloqueios de execução com maior previsibilidade pública e reforço da capacidade técnica do Estado.
Refira-se que, escolhidos tendo em conta a sua competência e experiência na área internacional, os Conselheiros do Comércio Externo da França (CCEF) são nomeados para um mandato de três anos por decreto do primeiro-ministro francês sobre proposta do Ministro do Comércio Externo.