A agricultura enfrenta um duplo desafio: produzir mais e melhor, num contexto climático cada vez mais incerto e instável. Este é o ponto de partida do plano de gestão ambiental da associação de produtores de pequenos frutos Lusomorango, que vai envolver a certificação da pegada hídrica, carbono e ecológica.
“O plano nasce para ajudar os produtores a prepararem-se para uma realidade em que há mais conhecimento, mais medição daquilo que é produzido, mas também para identificar oportunidades de melhoria e de transformação” nas várias vertentes do negócio – clientes, fornecedores e mercados, explicou Bruno Caldeira, ao apresentar o plano no VIII Colóquio Hortofrutícola, que decorreu esta sexta-feira, 17, em São Teotónio, concelho de Odemira.
“Temos um conjunto muito grande de desafios, de dificuldades, de obstáculos”, salientou o responsável pela área de Desenvolvimento Sustentável da consultora especializada em agribusiness, Consulai. O objetivo é dar-lhes resposta: “ser útil” e “dar-nos uma direção, um caminho”.
O Plano de Gestão Ambiental começou a ser trabalhado há pouco mais de um ano, mas os primeiros passos concretos foram dados em março último, com o início dos contactos com os associados. O momento atual é de planeamento e de diagnóstico e o resultado final dependerá da interação de todos.
O plano é um ponto de partida, assinala Bruno Caldeira. “Muitos associados sabem o que é um plano de gestão, pois têm um. Aqui, o desafio é ser conjunto, o que permitirá a todos e cada um tirar vantagens dele”. Numa região existem muitos outros interesses, além dos produtores, sendo necessário conciliar expectativas. “Vamos produzir um conjunto muito grande de informação que vai ser trabalhada e partilhada com outras entidades que necessitam dela”, adianta.
A apresentação do plano foi seguida de um debate moderado por José D’Aguiar, partner da ALL Comunicação, no qual participaram Filipa Saldanha, economista, diretora do Departamento de Sustentabilidade da Caixa de Crédito Agrícola, e Eduardo Bremm, diretor de Operações Ibéria da Driscoll’s.
Filipa Saldanha explicou que o financiamento sustentável beneficia de taxas de juro bonificadas para acelerar determinada transição e funciona como um círculo virtuoso. “Permite-nos responder a três necessidades muito concretas: primeiro, estamos a reduzir o risco dos nossos clientes; em segundo, estamos a apoiar a transição dos produtores, a transição para modelos que sejam mais inovadores para que eles possam crescer de forma mais robusta, não só na sustentabilidade, mas do ponto de vista do negócio”. O terceiro é a vantagem que o próprio banco tira do processo em si, acrescenta: “Estamos a criar novas oportunidades de negócio diretamente para o banco ao conceder novas oportunidades de financiamento”.
O Crédito Agrícola dispõe de linhas transversais – como soluções protocoladas com garantia pública nas áreas da eficiência hídrica e energética – que permitem apoiar investimentos em rega eficiente, energias renováveis ou modernização de infraestruturas. Especificamente para o setor agrícola, a instituição disponibiliza instrumentos como linhas para antecipação de ajudas, aquisição de fatores de produção ou leasing de máquinas e equipamentos.
Eduardo Bremm, director de operações da Driscoll’s em Portugal e Espanha, considera que o potencial do sector têm de continuar a ser desenvolvido lado a lado com os produtores, com foco na qualidade, na inovação, na tecnologia e na sustentabilidade. Salientou que “os consumidores estão mais exigentes e os retalhistas enfrentam metas apertadas de redução da pegada ecológica”, devido não só à crescente exigência dos consumidores, mas também às regulamentações europeias.
“Sem certificações simplesmente não é possível”, afirma.
O Colóquio Hortofrutícola é uma iniciativa da Lusomorango em parceria com a Universidade Católica, que tem o Jornal Económico como media partner.