O mercado mundial de lítio tem sofrido grandes oscilações de preços nos últimos anos, controlado pela China, um dos maiores produtores e refinadores mundiais deste mineral crítico para a transição energética. A falta de estabilidade dos preços é um dos problemas para a indústria quando chega a hora de obter financiamento para projetos que envolvem grande quantidade de investimento inicial.
É neste cenário que a dona da mina de Boticas, distrito de Vila Real, assegura que o seu projeto é rentável, com os custos de operação entre os 473-646 dólares por tonelada. “Conseguimos continuar a operar durante as piores condições de mercado. Conseguimos pagar as nossas contas, continuar a executar para recolher benefícios quando o mercado recupere”, disse o presidente da Savannah Resources na segunda-feira, 20 de julho.
Emanuel Proença recordou que no espaço de três anos os preços afundaram de 8 mil dólares por tonelada para 600 dólares, tendo recuperado ligeiramente para os 2.200 dólares. “É um mercado muito volátil. Foi um momento muito difícil para a indústria”, afirmou. “A volatilidade vai continuar a existir. Podemos continuar a operar mesmo debaixo das piores condições do mercado. É importante que os projetos estejam preparados para aguentar as condições duras do mercado”, acrescentou.
“Somos um dos projetos mais bem preparados para aguentar essas condições no mundo. Apesar de estarmos na Europa, apesar de termos de cumprir todas as regras europeias, estamos num bom local”, afirmou, garantindo a competitividade da mina portuguesa face a diversos concorrentes.
Na chamada com analistas, o gestor também revelou que a empresa já assinou cinco contratos com empresas de cerâmica nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, também anunciou que a mineira já comprou 150 terrenos e que outros serão expropriados. “Alguns têm de passar pela expropriação, faz-se o mesmo com barragens, estradas” com este processo a avançar por heranças indivisas, questões burocráticas ou oposição ao projeto.
A empresa prevê atribuir 75% da produção em contratos de longo prazo com os restantes 25% a estarem disponíveis para venda a preços do mercado ‘spot’, dando “flexibilidade comercial e operacional” à companhia.
Mina de lítio de Boticas com capacidade para fornecer sete milhões de baterias para carros elétricos
A mina de Boticas, distrito de Vila Real, tem capacidade para fornecer sete milhões de baterias para carros elétricos ao longo da sua vida útil inicial, 14 anos. A empresa mantém a intenção de arrancar com a produção em 2028. A estimativa foi revelada este mês pela Savannah Resources que anunciou a conclusão do Estudo Definitivo de Viabilidade (DFS), considerando um dos “marcos mais relevantes no processo de desenvolvimento” de um projeto mineiro, colocando-o numa “posição privilegiada” para avançar para as próximas etapas, incluindo a obtenção de financiamento.
“O estudo confirma uma vida útil inicial de 14 anos para o projeto, suportada por uma Reserva Provável JORC inicial de 20 milhões de toneladas de minério. Durante este período prevê-se a produção de aproximadamente 2,56 milhões de toneladas de concentrado de espodumena, matéria-prima suficiente para mais de 7 milhões de baterias para veículos elétricos”, segundo a mineira britânica.
A conclusão do estudo “representa a validação técnica, económica, ambiental e operacional do projeto aos olhos de investidores, bancos e parceiros comerciais, fornecendo um nível de detalhe sem precedentes sobre os custos de construção, operação e produção ao longo da vida útil da mina e da sua fábrica. Este trabalho permite agora à empresa avançar formalmente com processos de financiamento junto de instituições bancárias e financeiras internacionais, bem como finalizar acordos comerciais com clientes estratégicos e preparar o início de construção da fábrica, estrada e restantes infraestruturas previstas”.
A companhia destaca que o projeto Lítio do Barroso está entre os “projetos mais promissores da Europa, posicionando-o para ser o 2º de larga escala a operar na Europa, no seguimento do projeto Keliber na Finlândia, que já iniciou produção”. A Savannah revela que o estudo estima que o projeto vai contribuir com 720 milhões de euros em impostos, taxas e royalties para Portugal. Em termos de postos de trabalho, serão criados 500 postos diretos na mina, fábrica e escritórios, com mais de mil indiretos e induzidos.
Em termos de custos, os resultados “demonstram igualmente uma forte competitividade a nível internacional: os custos operacionais previstos” colocam o projeto no segundo quartil da curva global de custos da indústria, o que “equivale a dizer que é mais competitivo do que mais de 50% dos projetos hoje em operação no mundo inteiro”.
A empresa também destaca os “benefícios” para a região do Barroso com mais de 10 memorandos de entendimento assinados e outros acordos de cooperação com entidades locais, abrangendo áreas sociais, culturais, educativas e económicas, com a futura Fundação Savannah a permitir “desenvolver ainda mais iniciativas de interesse comunitário e reforçar o apoio ao desenvolvimento regional de longo prazo”.
A mineira também sublinha que o projeto está assente nos “nos mais elevados padrões ambientais da indústria mineira moderna. O plano de exploração foi desenvolvido para cumprir ou superar os requisitos legais portugueses e europeus, bem como as melhores práticas internacionais do setor. Entre as principais características destacam-se a utilização de um sistema de armazenamento de rejeitados a seco (Dry Stack), eliminando a necessidade de barragem convencional para o efeito, ou a implementação de um sistema autónomo de abastecimento e reciclagem de água, reduzindo em mais de 70% o seu consumo na operação”.
O projeto foi classificado pela União Europeia como Projeto Estratégico, “refletindo o papel fundamental que poderá desempenhar na segurança de abastecimento de matérias-primas essenciais para a transição energética. Em Portugal, o projeto verificou igualmente mais um importante sinal de empenho institucional através da assinatura, com a AICEP, de um contrato de investimento que prevê apoio financeiro até €110 milhões, sujeito à concretização dos investimentos previstos”.
“Estamos muito satisfeitos por publicar os principais resultados do Estudo Definitivo de Viabilidade da primeira fase de produção do Projeto. Este é mais um marco muito importante para o desenvolvimento do Projeto Lítio do Barroso e o culminar de muitos anos de um trabalho realizado pela nossa equipa e por alguns dos mais experientes consultores internacionais do setor. O Projeto, agora submetido aos rigorosos critérios técnicos exigidos por um estudo desta natureza, volta a demonstrar o seu potencial para gerar retornos económicos relevantes. Os custos operacionais previstos colocam o nosso Projeto ao nível — ou à frente — de alguns dos maiores e mais reputados projetos de espodumena do mundo, na Austrália, Américas e China”, segundo Emanuel Proença, presidente da Savannah.
“Mais importante ainda, o retorno económico será alcançado em paralelo com fortes benefícios socioeconómicos para a região. Entusiasmam-nos sobretudo as muitas centenas de postos de trabalho permanentes que trarão de volta à região pessoas em idade ativa e respetivas famílias, ajudando a inverter o acentuado declínio demográfico registado nas últimas décadas na região. O Projeto trará também novas infraestruturas, incluindo uma estrada que melhora muito a conectividade da região com o resto do país, criando oportunidades para as pessoas e para o tecido empresarial local. É caso raro uma empresa financiar e fazer, em nome do Estado, uma estrada para uso de todos”, acrescenta.
“Como português, partilho com a nossa equipa local um sentimento de orgulho por contribuir para melhorar uma região que o merece. O DFS proporciona-nos agora uma base sólida para avançarmos para a próxima fase de desenvolvimento do Projeto. Servirá de apoio aos trabalhos que estamos a desenvolver nas áreas de financiamento do Projeto, no cumprimento das obrigações associadas aos contratos com o Estado português, no avanço das negociações comerciais em curso, no desenvolvimento da engenharia de detalhe (Front-End Engineering Design) para a obra e na encomenda de equipamentos que chegarão para início da construção em 2027”, concluiu.