Durante anos, a Europa olhou para a China sobretudo como “a fábrica do mundo”. Um gigante industrial distante, fornecedor de produtos baratos e concorrente crescente da indústria europeia. Mas os tempos mudaram. E talvez a maior mudança seja esta: a China já não quer apenas vender para a Europa. Quer produzir dentro dela.

Espanha tornou-se, nos últimos meses, um dos exemplos mais claros dessa nova realidade. Da automação à energia, passando naturalmente pelo setor automóvel, várias empresas chinesas têm vindo a anunciar fábricas, centros de produção, parcerias industriais e investimentos estratégicos no mercado espanhol.

O objetivo é evidente: produzir localmente, reduzir o impacto das tensões comerciais entre Bruxelas e Pequim e ganhar acesso direto ao mercado europeu.

Mas esta nova vaga de investimento levanta uma questão particularmente interessante: estará a Europa a proteger-se da China… ou a abrir-lhe a porta?

A resposta é provavelmente mais complexa do que muitos gostariam.

Porque a verdade é que a transição energética e tecnológica colocou a Europa perante um enorme paradoxo industrial. A União Europeia quer liderar a descarbonização, acelerar a eletrificação automóvel, reduzir dependências estratégicas e preservar competitividade industrial. O problema é que grande parte da cadeia de valor associada a essa transformação é hoje dominada precisamente pela China.

E isso ajuda a explicar aquilo que hoje começa a acontecer: em vez de exportar apenas veículos para a Europa, muitas empresas chinesas optam agora por instalar produção dentro do próprio espaço europeu.

Não se trata apenas de uma questão comercial.

Trata-se de geopolítica industrial.

Espanha percebeu isso cedo. Com forte tradição automóvel, custos competitivos, boa capacidade logística e uma abordagem pragmática na captação de investimento, o país posicionou-se como uma das principais portas de entrada para esta nova fase da expansão industrial chinesa na Europa.

Também Portugal tem aqui uma janela de oportunidade que não pode — nem deve — ignorar. Com tradição industrial automóvel, capacidade logística e uma localização atlântica estratégica, o país reúne condições para atrair parte deste novo ciclo de investimento. A questão é saber se existe visão estratégica e velocidade de execução suficientes para aproveitar esta oportunidade — antes que outros países ocupem definitivamente esse espaço.

Ao mesmo tempo, Bruxelas continua dividida entre duas prioridades difíceis de conciliar: proteger a indústria europeia e garantir que a transição energética permanece economicamente viável.

Porque existe uma realidade que a Europa começa lentamente a reconhecer: grande parte da escala industrial, da capacidade produtiva e do investimento necessários para acelerar a transição elétrica estão hoje concentrados na China.

O risco, naturalmente, é evidente. A Europa pode estar a trocar antigas dependências energéticas por novas dependências industriais e tecnológicas.

Mas existe também outro risco, talvez ainda mais imediato: o de a Europa perder competitividade por excesso de lentidão, burocracia ou incapacidade de adaptação à nova realidade global.

O debate não pode, por isso, resumir-se a uma visão simplista entre “abrir” ou “fechar” portas à China. A verdadeira questão é outra: conseguirá a Europa atrair investimento, preservar emprego, desenvolver tecnologia e manter controlo estratégico sobre setores fundamentais da sua economia?

No setor automóvel, esta discussão é particularmente relevante. Porque a competição já não se trava apenas na produção de veículos. Trava-se em toda a cadeia de valor da mobilidade: baterias, software, conectividade, distribuição, dados, serviços e pós-venda.

A nova batalha industrial europeia já começou. E a grande ironia deste momento é que uma parte importante da reindustrialização europeia poderá acabar por chegar… vinda da própria China.