A declaração final conjunta da cimeira da NATO em Ancara, esta semana, teve como finalidade central convencer os 745 milhões de pessoas que vivem na Europa – exceto austríacos, irlandeses, malteses, cipriotas, suíços e alguns balcânicos – de que o escudo protetor (nuclear) dos Estados Unidos continua a iluminar (ou a fazer sombra, conforme as opções ideológicas) sobre o continente. Nada muda, portanto, a não ser um pequeno detalhe: o custo dessa proteção – que até agora era negligenciável – passa a ser uma parcela importante no ‘deve & haver’ dos orçamentos dos Estados (e da União Europeia no seu conjunto).

A promessa, pelo menos da União Europeia, é que esse esforço na área da defesa não vai ser ‘descompensado’ com cortes nos investimentos em outras áreas – mas essa conta aritmética só é possível se as máquinas de fazer dinheiro forem ligadas dia e noite. Ou seja, dizem alguns analistas, ou as União corta noutras despesas ou faz disparar a inflação. Ora, sendo ela (a inflação) de evitar a todo o custo, a retórica de que a despesa militar não implica um corte noutras áreas é uma impossibilidade. Já a certeza de que os gastos em defesa são um investimento na indústria é, dizem os mesmos críticos, falsa até prova em contrário (no terreno, com criação de emprego e aumento da dimensão das empresas).

A prevalência da Gronelândia

A insistência que a declaração final da cimeira impôs na questão do artigo 5º que implica uma participação de 31 países na defesa de qualquer um dos 32 que seja atacado deu-se porque o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuperou, no mesmo dia em que encontro anual teve início, a retórica do interesse do seu país na posse da dinamarquesa ilha da Gronelândia. A declaração diz que os países reafirmaram o seu compromisso “inabalável” com a defesa coletiva, conforme o que está estipulado pelo artigo 5º do pacto da aliança – algo que visa um novo entendimento entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os seus aliados europeus, depois de Washington ter colocado em dúvida que o aceitaria sem restrições.

“A nossa unidade, solidariedade e força coletiva continuam a ser o alicerce da paz, da segurança e da prosperidade para o bilião de cidadãos na nossa aliança de nações livres e democráticas. Mantemos o nosso compromisso com a abordagem de 360 graus para dissuasão e defesa”, diz a declaração.

A leste, nada de novo

A aliança destacou a Rússia como uma “ameaça de longo prazo” à segurança e estabilidade euro-atlânticas. Neste contexto, nenhuma alteração: a Rússia, tal como em abril de 1949 (a criação da NATO) a União Soviética continua a ser a razão primeira da existência da aliança. A diferença continua a ser, mais uma vez, quem para o quê. “Em 2025, os aliados europeus e o Canadá aumentaram os seus investimentos em requisitos essenciais de defesa em mais de 139 mil milhões de dólares. Os nossos investimentos estão a proporcionar as capacidades de que precisamos, ao mesmo tempo que fortalecem a nossa base industrial e a nossa resiliência. Hoje, em Ancara, anunciamos mais de 50 mil milhões de dólares em novas aquisições e comprometemo-nos a expandir a capacidade de produção coletiva e a trabalhar com a indústria para acelerar a inovação. Continuaremos o nosso trabalho para eliminar as barreiras comerciais de defesa entre os aliados e alavancar as parcerias da NATO para maximizar a profundidade e a cooperação industrial na área de defesa”, afirma o documento.

A declaração contém uma referência velada ao conceito NATO3.0: “Estamos a construir o futuro: uma Europa mais forte numa NATO mais forte, uma aliança modernizada. Os aliados europeus e o Canadá, trabalhando com os Estados Unidos, assumem maior responsabilidade pela defesa da aliança. A dissuasão e a defesa da NATO baseiam-se numa combinação adequada de capacidades nucleares, convencionais e de defesa antimíssil, complementadas por recursos espaciais e cibernéticos. Estamos comprometidos em manter a nossa vantagem em combate. Estamos a investir na nossa capacidade de mobilizar, capacitar e sustentar as nossas forças armadas e atingir as nossas metas de capacidade em todos os domínios, incluindo ataques de precisão em profundidade, defesa aérea e antimíssil integrada, sistemas não tripulados, tecnologias de ponta e capacidades de inteligência. Estamos a desenvolver uma nuvem de guerra transatlântica interoperável e a adotar modelos de IA poderosos”, diz ainda o documento.

Defesa da Ucrânia em alta

Parte da declaração foi dedicada à Ucrânia. “A Ucrânia contribui para a segurança transatlântica e os aliados estão unidos no seu apoio inabalável à Ucrânia na defesa de sua liberdade, soberania e integridade territorial. Os aliados europeus e o Canadá financiam atualmente a grande maioria da assistência de segurança à Ucrânia por meio de mecanismos bilaterais e multilaterais. Os aliados ressaltam que esse apoio deve ser equitativo, previsível e sustentável a longo prazo. Para 2026, os aliados prometem 70 mil milhões de euros em equipamentos militares, assistência e treino para a Ucrânia e reafirmam os seus compromissos soberanos de manter níveis pelo menos equivalentes em 2027. Para esse fim, saudamos a decisão da União Europeia de fornecer financiamento plurianual à Ucrânia por meio do Empréstimo de Apoio à Ucrânia”, afirma a declaração.