A sala de Miguel Saraiva, fundador e acionista de referência da S+A, fica no piso superior do ateliê. É um espaço um pouco caótico, como convém a quem vive da criação. Há estantes carregadas de livros, maquetas espalhadas pela mesa e mensagens de liderança coladas nas paredes. Num dos cantos destaca-se um carrinho de serviço da companhia aérea Turkish Airlines, comprado na internet, para lhe recordar um dos períodos mais exigentes da sua carreira, os anos da crise financeira, entre 2008 e 2014, quando teve de dar três voltas ao mundo em busca de trabalho para manter o negócio de pé. Passou pela Argélia, Brasil, Vietname, Cazaquistão, Malásia, Singapura e China. “Viajei sempre em classe económica”, recorda. “Tivemos quatro anos sem emitir uma única fatura em Portugal”, diz ao Jornal Económico.

A internacionalização foi definida de duas formas. Começou pela exportação, ir aos países e captar encomendas para produzir em Lisboa. Rapidamente compreendeu que não ia ter sucesso. A Europa estava em crise, tinha pouca tradição de vender serviços lá fora, por isso não seria reconhecido no mercado. Optou por bater a concorrência europeia nos países onde estava enraizado com ateliês próprios. “Foi uma fase muito dura, muito exigente profissionalmente e socialmente”, admite.
Da sua sala avista-se a área de produção, onde dezenas de arquitetos e outros profissionais trabalham em frente aos computadores. Saraiva, de 57 anos, acompanha o movimento lá de cima. “A interpretação que fazem é que estou a controlá-los. Mas não é isso. É verem-me pelo exemplo”, acrescenta. No piso inferior salta à vista uma reprodução de Little Boy, a primeira bomba atómica lançada sobre a cidade de Hiroxima, da autoria do artista plástico João Louro.

O arquiteto tem a mão por toda a parte. É exigente com todos e olha para todos os projetos. É dele a sede da Polícia Judiciária e da Caixa Geral de Depósitos, ambas em Lisboa. Também a Infinity Tower ou a Oriente Green Campus. E o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. Desenhou o Forte Bank Headquarters, no Cazaquistão, e a Ocean Towers, em Angola. É ainda autor da sede da Tagusgás, no Cartaxo, e da Park International School, em Alfragide. Concebeu o Savoy Palace Hotel, no Funchal, e assina projetos como o The Emerald House, o Hotel Santa Apolónia e o Verdelago Resort, no Algarve. “Celebrar três décadas neste setor é um exercício de realismo. Quando fundei este atelier, em 1996, era apenas um jovem arquiteto com muitos sonhos e, admito, uma boa dose de audácia. Se me dissessem naquela altura que aquele pequeno projeto pessoal se transformaria no maior ateliê de arquitetura de Portugal e com obras icónicas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, eu próprio teria achado que era um sonho alto demais”, afirma.

Hoje em dia, o ateliê (detido em partes iguais por Miguel Saraiva e um fundo de investimento do Luxemburgo) fatura 15 milhões de euros (80% no mercado nacional) e tem projetos em 30 países. “Isto é quase um relógio suíço. Não temos meios para produzir mais. E também não queremos para garantir o controlo da qualidade do trabalho que desenvolvemos”, sublinha.
Os clientes globais batem à porta da Infante Santo. Manter estruturas fora do país exige uma grande dose de encomendas e tem vários riscos, como o fiscal e o cambial. Já teve 11 ateliês internacionais, mas concentrou operações. “Temos vários parceiros que depois nos levam para outras geografias”, explica.

Atualmente, os principais clientes são empresas portuguesas ou fundos de investimento. “Nós hoje trabalhamos para profissionais do setor que tornaram o imobiliário uma indústria. Os grandes desafios atuais, desde as exigências de sustentabilidade e a urgência climática até à inovação tecnológica obrigam-nos a ser muito mais do que simples desenhadores”, diz. “Compreendemos perfeitamente que o mercado já não procura apenas um edifício; o que se procura hoje é uma solução global de vanguarda. Uma solução que eleve o design e o lado estético a patamares de excelência, mas que responda com total eficácia à vertente operacional, garantindo segurança técnica, rigor e inovação”, aponta.

Soluções para desafios
O processo criativo da S+A baseia-se numa relação estreita com os clientes, promovendo sinergias que superam a mera prestação de serviços. O ateliê integra princípios de design centrado no utilizador, conciliando funcionalidade, conforto e expressão estética, incorporando critérios de sustentabilidade e desempenho ambiental. “Uma coisa que a S+A criou, devido à sua dimensão e ao seu corpo técnico altamente qualificado, foi o termos hoje pessoas que desenham hospitais e sabem de programas funcionais hospitalares, que sabem de justiça, que sabem de habitação, que sabem de hotelaria, que sabem de escritórios”, reforça.

Com presença em diversos mercados e tendo integrado o ranking World Architecture 100 — sendo o único atelier português a consegui-lo — a S+A mantém uma prática consistente no desenvolvimento de soluções arquitetónicas que respondem aos desafios de uma sociedade em constante transformação.

“Cada traço desenhado no ateliê e viabilizado no terreno tem um impacto profundo na malha social, no ordenamento do território, na captação de investimento e no posicionamento das geografias onde atuamos”, afirma Miguel Saraiva.
“A arquitetura é, na sua essência, um reflexo e um veículo das dinâmicas políticas, económicas e estratégicas de um país”, acrescenta.

Essa lógica de exigência e de presença constante não termina com o fim do dia nem com o fim do trabalho no ateliê. “O futuro faz-se com uma S+A que há muito deixou de ser o projeto de um homem só, para passar a ser uma instituição multifacetada, enriquecida por uma equipa de arquitetos e outros profissionais em áreas complementares”, diz Saraiva.

“A minha profissão, que está na classe das artes, não é uma profissão das nove às cinco. Eu não me consigo desligar das minhas ideias, reflexões, intenções, preocupações e angústias quando saio daqui. O grande objetivo é perpetuar a S+A além da minha existência”, conclui.