Agora que o estreito de Ormuz está fora das nossas preocupações, depois de Trump ter dito ao Supremo Líder “vamos jogar ao fim disto, coroas perco eu, caras ganhas tu”, estamos a acordar para o senhor na ponta direita do Continente.
Este é um problema exclusivamente europeu depois de Trump reeditar a cena de Pilatos, e é bom que nós, europeus, não percamos de vista a máxima de Benjamim Franklin: “we must all hang toghether or we shall all hang separately”. É, pois, preocupante o que se passa na Velha Albion.
Tivemos no mês passado a ejeção de Starmer de Downing Street pelo seu próprio partido, e tiraram um homem de Manchester para o pôr no Parlamento para ser primeiro-ministro – a política no seu melhor.
Depois do massacre das eleições locais às mãos do Reform, de Nigel Farage, os trabalhistas recorreram ao golpe palaciano para limitar danos. Escolheram uma figura simpática e carismática, ex-governante, Presidente da Câmara de Manchester, que na sua circunscrição deixou o candidato do Reform a ver navios. Que vai isto implicar para nós?
Andy Burnham é D. Sebastião no nevoeiro londrino. Para o partido, se não se sabe o que vai fazer, não interessa, pois é o único que pode impedir a vitória de Farage; para nós, também, mas…
Até agora, ele prometeu três coisas: devolução, a transferência de poder para as autoridades locais, mas em 55 referendos feitos este milénio só em 17 tal foi aprovado; baixar os preços da energia elétrica, como não disse; e milhão e meio de habitações sociais, sem dizer com que dinheiro.
E mais avançou, mas isso não é importante; é, sim, que mantenha o apoio à Ucrânia e que continue a reaproximação à União (ele é favorável ao regresso, embora não encare para já novo referendo). O Reino Unido é um pilar da defesa europeia e foi uma força de progresso do mercado interno, evitando excessos de intervenção.
Mas a vida de Burnham não vai ser fácil.
Como se governa um país em que só em Gales 20% da população em idade de trabalhar vive de apoios sociais? Que, diz Idrees Kahloon no “Atlantic”, em 2007 tinha um rendimento mediano acima da Alemanha, a libra valia dois dólares e a bolsa ia ultrapassar Nova Iorque, para hoje estar só marginalmente acima do Mississipi, o estado americano mais pobre.
É esta a missão que Starmer falhou, com os seus constantes flic-flacs, e que Burnham tem pela frente. Vamos esperar que se cumpra a Lei de Littlewood: “in the course of any normal person’s life, miracles happen at a rate of roughly one per month”.