A Inteligência Artificial (IA) vai revolucionar o mundo e Portugal parece querer acompanhar.

O lançamento do AMALIA, o modelo de AI aberto em português, tem mérito pois procura valorizar a língua, mobilizar universidades e reduzir a dependência tecnológica, mas não devemos confundir soberania digital com a ilusão de que Portugal pode competir na corrida global dos modelos de IA.

Os grandes modelos internacionais evoluem a uma velocidade e escala galopante que nenhum país pequeno consegue replicar isoladamente. O OpenAI, Anthropic, Google ou Meta investem milhares de milhões em computação, talento, dados, segurança e produto, onde Portugal não tem qualquer hipótese. E é contra esse padrão que qualquer solução pública será comparada.

O problema ficou evidente quando o AMALIA falhou perguntas factuais simples, incluindo o nome do primeiro-ministro. Não é apenas um erro anedótico, é um sinal de que o modelo de linguagem não tem ligação a fontes oficiais, nem validação contínua e integração em serviços reais, podendo assim produzir respostas falsas.

Para o cidadão, pouco interessa se o modelo é nacional ou não, se a resposta é errada. A confiança no Estado digital constrói-se com rigor e utilidade, e não é isso que está a acontecer.

Antes de gastar mais dinheiro, a pergunta deve ser: que problema concreto resolve o AMALIA melhor do que as alternativas já existentes? Para escrever textos, resumir documentos, traduzir, programar, apoiar atendimento ou analisar informação, os modelos internacionais já oferecem desempenho muito superior com interfaces maduras, APIs estáveis e atualizações constantes.

Um modelo português pode ser útil em nichos como o património cultural, bases documentais públicas e investigação linguística, mas dificilmente será a ferramenta diária escolhida pelos portugueses. Em vez de tentar criar “o ChatGPT português”, Portugal deveria focar-se em construir a melhor infraestrutura nacional que bebesse dos dados públicos organizados, e que respondesse às questões dos cidadãos.

Portugal não perde soberania por trabalhar com líderes internacionais, mas perde soberania ao gastar dinheiro em soluções que ninguém usa. O Estado poderia negociar acordos com OpenAI, Anthropic/Claude, garantindo a escalabilidade e fidedignidade da informação. A soberania digital do século XXI não está em ter um modelo com nome português. Está em garantir que os portugueses usam a melhor IA disponível para viver, trabalhar, aprender e competir melhor.