Criada há um ano, a startup portuguesa SpotGov, que aplica inteligência artificial (IA) à contratação pública, já está a avançar para novos mercados europeus, numa altura em que já trabalha com mais de 100 empresas de 13 setores diferentes, desde saúde, construção, energia, facility services e transportes. Contudo, este ano vai servir para se focar em continuar a crescer em Portugal.
Ao Jornal Económico, João Alves, CEO da SpotGov, refere que a expansão já está a ser preparada. “Já estamos a avançar para outros mercados europeus, com o objetivo de garantir que entramos com o produto certo e a abordagem comercial adequada a cada contexto”, salienta.
O facto dos desafios com a contratação pública serem transversais aos diferentes países, e os Estados-membros partilharem das mesmas diretivas, os problemas neste setor podem ser partilhados, o que “torna a base da plataforma robusta para cobrir o mercado europeu”, afirma.
Para este ano, o objetivo da startup também passa por se consolidar como “o sistema operativo da contratação pública”. Até ao momento já apoiou a gestão de cerca de 10% dos contratos públicos em Portugal, e pretende que este número “cresça de forma significativa” tanto no mercado nacional como na expansão europeia. Ao mesmo tempo que pretende garantir que se “mantém na linha da frente” da evolução tecnológica, e que “cada melhoria se traduz em valor concreto para as empresas com quem” trabalha.
“A médio prazo, vemos oportunidade em alargar o papel da tecnologia à vertente pública da contratação. As entidades adjudicantes têm, neste momento, poucas ferramentas para gerir os seus processos com eficiência e transparência. Uma plataforma que estruture dados, organize informação e torne os processos mais legíveis para o mercado e para os cidadãos seria uma mais-valia real para o ecossistema de contratação pública”, declara João Alves.
A startup criou um sistema operativo para a contratação pública, onde consegue cobrir todo o percurso de uma empresa num concurso, desde a identificação das oportunidades certas à análise da documentação. “É uma infraestrutura que organiza, de ponta a ponta, um mercado que ainda depende em grande parte de processos manuais e fontes de informação dispersas”, explicou.
Criada para diversos setores, a plataforma “utiliza pesquisa semântica e contextual para identificar oportunidades, o que elimina a dependência de palavras-chave exatas; analisamos documentação automaticamente e geramos relatórios resumidos em minutos; cruzamos os requisitos dos concursos com os documentos das empresas para antecipar desqualificações; e temos por base uma base de dados com mais de dois milhões de procedimentos históricos para alimentar dashboards de mercado e apoiar decisões com dados”, indicou.
Apesar de não estar a trabalhar com o Estado, mas estar em contacto com entidades públicas “numa lógica exploratória”, João Alves considera que a reforma do Estado é “necessária”. “A simplificação de procedimentos, a redução de exigências documentais redundantes e as alterações ao mecanismo de vistos prévios representam um reconhecimento de que o problema não estava apenas na forma como se controlava, mas na dificuldade em executar. Isso é positivo e é o caminho certo”, referiu.
Contudo, o CEO salientou que a regulamentação por si só não transforma. “Os países que integrarem IA nos seus processos administrativos terão Estados mais ágeis, serviços mais rápidos e políticas mais bem calibradas. Portugal tem atualmente uma janela de oportunidade para dar esse salto”, afirmou.
Em Portugal a contratação pública tem um problema duplo, na opinião de João Alves. “É muito exigente nos processos e muito pouco acessível nos resultados, com um foco excessivo no controlo formal que criou um sistema pesado, repetitivo e desajustado em relação ao risco real dos projetos, e uma parte significativa das candidaturas acaba excluída por incongruências administrativas sem qualquer relação com a valência técnica, o que deixa muitos concursos com um único concorrente”, declarou.
De acordo com o relatório Anual da Contratação Pública, em 2025, esta representou 24,77 mil milhões de euros em Portugal, e cerca de 15% do PIB a nível global. Estes dados demonstram que esta é uma “dos setores mais relevantes para a economia e também um dos que mais ressente a falta de tecnologia”. Com a IA a capacidade de processamento de informação aumenta, e reduz-se os erros.
“O impacto direto está na concorrência e, neste caso, quando mais empresas conseguem participar num concurso com menos esforço, o número de propostas sobe, a qualidade aumenta e a alocação do orçamento público melhora”, apontou.
O facto de o Governo já ter mostrado abertura a uma simplificação e aceleração na contratação pública “apontam no caminho certo”, contudo, o CEO sublinhou que “acelerar não pode significar reduzir transparência”.
“Sem a validação prévia, as entidades públicas ficam mais expostas, o que exige um esforço acrescido de transparência tanto da administração pública como na capacidade de prestar contas aos cidadãos”, revelou.
Para o CEO “se tivermos, de um lado, uma contratação pública com processos mais simples e contratos mais fáceis de identificar, e do outro empresas com mais capacidade de resposta, o resultado é mais concorrência, melhores candidaturas e uma alocação mais eficiente do investimento público”.