Os EUA celebraram no passado sábado o 250.º aniversário da assinatura da sua declaração de independência. Já escrevi algures noutro artigo sobre a relevância política e civilizacional que esse documento representou para o Mundo, sobretudo pela afirmação de que “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador com certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que para garantir estes direitos os governos são instituídos entre os Homens, derivando os seus justos poderes do consentimento dos governados”.

Na sequência desta proclamação, o documento elabora uma lista de malfeitorias que tornavam necessário quebrar os laços de fidelidade à Coroa Britânica e declarar “que estas colónias unidas são e de direito têm de ser ESTADOS LIVRES E INDEPENDENTES”.

As treze colónias não constituíam uma unidade, aliás eram bastante diferentes entre si – as colónias do Norte eram fundamentalmente burguesas e urbanas, já com alguma preponderância industrial, enquanto as do Sul eram dominadas por uma elite de grandes proprietários que explorava uma agricultura assente em larga medida na escravatura.

Mas a consciência da gravidade da ruptura levou a que todas reconhecessem a necessidade de se manterem unidas. John Hancok, delegado da Georgia e Presidente do Congresso, terá dito “we must be unanimous (…) we must hang together” (temos de ser unânimes (…) devemos permanecer unidos), a que Benjamin Franklin terá respondido, num trocadilho algo mórbido, que se não permanecessem unidos “most assuredly we sall all hang separately” (certamente, cada um de nós será enforcado separadamente).

Sabemos o que se seguiu. Os EUA afirmaram-se, criaram a sua estrutura de governo federal, respeitando os direitos e interesses dos Estados, assumindo entre si e perante outros uma forte consciência e identidade nacionais. Muitas vezes, como aconselhados por George Washington, no seu discurso de despedida, concentraram-se em si próprios, sentindo-se protegidos por dois oceanos, afirmando uma visão excepcionalista do seu papel e ignorando os problemas do resto do Mundo, com quem apenas pretendiam comerciar, sempre que possível numa lógica de afirmação de poder económico mais do que de igualdade; outras vezes, intervindo directamente no panorama internacional, utilizando o seu poder militar para impor a sua visão e os seus interesses, que podiam ou não coincidir com os de outros.

Na segunda metade do século XX e princípios do século XXI, os interesses dos EUA e da Europa eram complementares porque identificavam um adversário comum. Isso levou a Europa a sentir-se protegida, certa de que a presença dos EUA seria suficiente para desincentivar a Rússia de concretizar o seu sonho histórico de expansão para Ocidente em busca de fronteiras estáveis e de acesso ao mar. Mas, actualmete, os EUA identificaram a China como adversário principal e, se bem que não se possa dizer que ignoram a ameaça russa, subalternizaram-na, e tendem a deixar à Europa a responsabilidade de se defender a si própria.

Esta situação tem semelhanças com a que se vivia nas colónias americanas no século XVIII – os países da Europa são diferentes entre si, têm cultura, história e economia próprias, mas partilham a ameaça do expansionismo russo. Nenhum país da Europa tem capacidade para fazer face à ameaça russa sem participar num quadro de política externa e de defesa unificada. Seria importante aceitarmos avançar no sentido da criação de uma nova identidade, de natureza federal, como dizia Franklin: se não estivermos unidos, cairemos um a um.