
A Europa adormeceu face ao tema do envelhecimento. O maior desafio é o risco da demografia. Por cá, não é diferente. Em Portugal vive-se mais, mas não necessariamente melhor.
O aumento da esperança média de vida, frequentemente celebrado como um dos maiores sucessos das últimas décadas, esconde um problema estrutural que o país ainda não conseguiu resolver: como garantir qualidade de vida numa sociedade cada vez mais envelhecida.
O alerta não é novo, mas ganha urgência. “Se nada for feito, Portugal poderá tornar-se, nas próximas décadas, o país mais envelhecido da Europa”, alerta preocupado Adalberto Campos Fernandes, médico e Coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde, no evento Seguros Summit 2026, realizado pelo Jornal Económico, hoje em Lisboa e cujo tema central é o impacto da longevidade e da transformação social no setor segurador.
Adalberto Campos Fernandes chama ainda a atenção para o facto de Portugal figurar já entre os países mais envelhecidos do mundo – em 2060, 35% das pessoas terão mais de 60 anos, uma realidade que coloca pressão sobre o sistema de saúde, a segurança social e a própria estrutura económica.
E conta que no seu tempo de estudante de medicina olhavam para a Suécia como um país de sonho em termos de longevidade. Portugal já conseguiu atingir os mesmos números, contudo na sua opinião, “vencemos algumas batalhas, mas não a guerra da qualidade de vida”.
Mais anos, mais doença
Os dados são claros. Apesar da redução de doenças evitáveis e dos avanços médicos, uma parte significativa da população chega à velhice com doenças crónicas. A longevidade não tem sido acompanhada por um aumento proporcional dos anos de vida saudável.
Este fenómeno levanta uma questão central: estará o sistema preparado para lidar com uma população mais envelhecida, mas também mais dependente?
A resposta não totalmente positiva. O modelo atual continua excessivamente centrado na resposta à doença, em vez da sua prevenção e na promoção de envelhecimento ativo.
Uma economia por reinventar
O envelhecimento não é apenas um desafio social — é também económico. “A chamada “economia da longevidade” começa a ganhar espaço no debate europeu, mas continua pouco desenvolvida em Portugal”, considera Adalberto Campos Fernandes.
A ideia é simples: deixar de encarar os mais velhos como um peso e passar a integrá-los como agentes ativos na sociedade. Isso implica repensar o mercado de trabalho, os sistemas de reforma e até o papel social das pessoas após a idade ativa.
Num contexto em que as carreiras contributivas são mais curtas e a esperança de vida mais longa, o modelo tradicional torna-se difícil de sustentar.
Europa dividida, Portugal indeciso
O problema não é exclusivo de Portugal, mas assume contornos mais graves no sul da Europa. “Países como Itália, Espanha e Portugal enfrentam taxas de natalidade baixas e envelhecimento acelerado, ao contrário de alguns países do norte, onde políticas mais robustas têm mitigado o impacto”, compara. Ainda assim, a resposta europeia tem sido fragmentada. “Falta uma estratégia comum e, sobretudo, decisões políticas que antecipem o problema em vez de reagirem a ele”, aponta.
Tecnologia e imigração: soluções incompletas
Entre as soluções frequentemente apontadas estão a imigração e a inovação tecnológica. A entrada de população mais jovem pode ajudar a equilibrar a pirâmide demográfica, mas não resolve o problema estrutural.
Já a tecnologia — da robotização aos sistemas de apoio domiciliário — promete aliviar a pressão sobre os serviços, mas levanta novas questões sobre custos, acesso e desigualdades.
Um país desigual que envelhece
O envelhecimento cruza-se ainda com outro problema estrutural: a desigualdade. Em Portugal, uma parte significativa da população envelhece com poucos recursos, o que agrava os desafios de saúde e autonomia.
“Metade do país enfrenta dificuldades no acesso a cuidados e condições de vida dignas, enquanto a outra metade vive uma realidade distinta. Esta clivagem tende a acentuar-se com o passar do tempo”, diz o Coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde.
Mudar o olhar sobre a idade
Apesar do cenário exigente, há sinais que desafiam a narrativa tradicional do envelhecimento. Num mundo onde líderes políticos e económicos continuam ativos bem além dos 70 anos, a idade deixa de ser sinónimo automático de incapacidade.
O verdadeiro desafio está em criar condições para que mais pessoas possam envelhecer com saúde, autonomia e participação social.
Portugal enfrenta, assim, uma escolha: continuar a adiar decisões estruturais ou assumir que o envelhecimento não é um problema passageiro, mas uma transformação profunda da sociedade. A resposta a esse desafio poderá definir o país das próximas gerações.