Às vezes há situações que, tendo pouco em comum em termos de materialidade, se assemelham em termos de processo. Recentemente assistimos a dois casos que na minha opinião ilustram esta afirmação – a negociação do acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão e a discussão do pacote laboral em Portugal.

Repito. Estes dois exemplos nada têm em comum no que respeita aos temas ou aos intervenientes, mas encontro semelhanças nos aspectos processuais.

No caso do acordo entre os EUA e o Irão, entre os dois lados existem enormes divergências de interpretação da situação que conduziu às negociações e, consequentemente, nas posições sobre as matérias em discussão. OS EUA assumem-se como vencedores de um conflito militar que, na sua descrição, levou à decapitação do regime, à destruição da infraestrutura militar do adversário, à obliteração da sua capacidade de desenvolver um programa nuclear, e manifestando disponibilidade para retomar a via armada para impor o resultado que pretendem.

Do outro lado o Irão continua a manifestar os seus próprios pontos de vista em cada uma das matérias em discussão, quase sempre em flagrante contradição com as posições dos EUA, apresentando exigências como o fim da agressão israelita no Líbano e a libertação de valores que se encontram congelados no Ocidente como condições para prosseguir nas negociações, enquanto que se sente também com capacidade para ameaçar com o encerramento do estreito de Ormuz…

Parece-me que o Irão comparece na mesa das negociações em posição de pelo menos sugerir que as estridentes proclamações de vitória que Trump tem vindo a fazer foram exageradas ou prematuras. Que vitória foi esta que o pretenso vencedor continua a proclamar e que a outra parte contesta na mesa das negociações, aparentemente com algum sucesso?

Entretanto, em Portugal, o processo negocial do pacote laboral durou meses, envolvendo discussão em vários ambientes, desde a Concertação Social até ao Parlamento, sem esquecer a campanha eleitoral para a Presidência, a imprensa e as redes sociais. E as coisas pareciam encaminhadas no sentido de se conseguir um alinhamento entre a AD e o Chega que permitiria fazer aprovar o documento, mesmo subsistindo a questão da baixa da idade da reforma, que durante muito tempo o Chega manteve como condição essencial, embora tenha suavizado a sua posição, passando a formulá-la como compromisso a concretizar até ao fim da legislatura.

Reconheçamos que o Governo nunca respondeu claramente a esta matização, e que o primeiro-ministro, na véspera da votação, referiu, em resposta a uma deputada da IL, que o Governo não apoiava essa descida, mas sem se comprometer claramente. Mas o líder parlamentar do PSD afirmou que, quisessem ou não as oposições, o pacote laboral seria aprovado.

Ventura sentiu-se então suficientemente forte para, como é costume, proclamar vitória e reclamar para si um conjunto de conquistas dos trabalhadores. Mas o Governo nunca poderia aceitar ficar refém de tais declarações estridentes de vitória, e nos momentos finais reafirmou a sua oposição à baixa da idade da reforma. Ventura não teve outro remédio que não votar contra, e assim deitar fora todos os grandes triunfos que tinha proclamado.

A semelhança entre estes dois casos está na prematuridade da afirmação de vitória, que tanto num como noutro visava agitar as redes sociais e a respectiva base social de apoio e (sobretudo) satisfazer o próprio ego, já de si enorme e que tende a anular a inteligência e a razão.