Desde 29 de março que os aviões da irlandesa Ryanair deixaram de aterrar nos Açores. O fim dos voos tem um impacto económico total entre 143,9 e 165,8 milhões de euros (que inclui os efeitos diretos, indiretos e induzidos na economia) para o arquipélago, segundo as contas da Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD).
Associações ouvidas pelo Jornal Económico (JE) dão conta dos efeitos provocados pela saída da companhia aérea da rota açoriana, deixam críticas à política pública para o turismo e reivindicam mais verbas para a promoção do destino e rotas aéreas.
A CIPD estima que a companhia aérea transportava anualmente entre 102.886 e 118.561 turistas para o arquipélago e que a saída da empresa irlandesa pode traduzir-se numa perda anual entre 339 mil e 391 mil dormidas.
“A redução da oferta aérea associada à saída desta companhia terá consequências económicas relevantes para os Açores, afetando o turismo, o tecido empresarial e o crescimento do Produto Interno Bruto [PIB] regional”, afirma a Câmara do Comércio.
Assim, a economia açoriana já não vai crescer 2%, em linha com o estimado para o total do país, mas um terço ou um quarto disso, “comprometendo de forma substancial” a dinâmica económica regional que estava perspetivada no plano e orçamento para 2026.
“Em termos práticos, uma parte significativa do crescimento projetado poderá ser anulada por uma redução estrutural da oferta aérea”, diz a CCIPD.
A Câmara de Comércio salienta que a presença da Ryanair nos Açores teve um “papel relevante” na política de acessibilidades, ao introduzir “concorrência efetiva, estimular a moderação tarifária, reforçar a conectividade internacional direta e gerar tráfego turístico adicional”, e a sua saída traz ainda a “redução de um fator de dinamização económica com efeitos diretos e indiretos na estrutura produtiva regional”. Acrescenta que o impacto económico potencial da saída da transportadora aérea é de uma ordem de grandeza “substancialmente superior” ao esforço financeiro público que poderia ser necessário para assegurar a manutenção e a diversificação das acessibilidades aéreas.
Neste cenário, a Câmara de Comércio açoriana considera que é essencial colocar o debate numa lógica de custo-benefício, “avaliando de forma estratégica as opções disponíveis para proteger a competitividade” do destino.
Associações pedem mais verbas para promoção e rotas
A presidente da AREAT Açores, Alice Lima, salienta que além dos efeitos negativos da saída de uma companhia aérea, os Açores também perdem a “máquina de promoção turística” que a empresa irlandesa representava para o arquipélago.
Alice Lima diz que a “falta de lugares” advinda da saída da Ryanair [da rota] e a falta de “promoção turística” do destino “está a afetar” as empresas e deixa críticas à “falta de estratégia” do Governo Regional para o setor e o “pouco valor” que existe para promoção.
“O mercado não pode voar por decreto. Temos de investir em promoção e dispersar o turismo pelas várias ilhas açorianas. A falta de investimento que existiu anteriormente causou a saída da Ryanair”, considera.
Alice Lima diz que existem casos de empresas que estão a enfrentar quebras entre os 50% e os 80%, traduzindo-se em “emprego mais precário” e também no próprio colapso empresarial.
A membro do conselho diretivo da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Andreia Pavão, refere que esta saída da Ryanair está a ter impacto na preparação do verão deste ano. Uma das consequências está na quebra do mercado nacional que deve ficar abaixo dos valores de 2025.
Andreia Pavão indica que o destino tem tido uma quebra em indicadores como os hóspedes e as dormidas face ao ano passado, algo que pode ser agudizado pela saída da companhia aérea irlandesa.
“Estamos com a tempestade perfeita”, afirma. Andreia Pavão sublinha que a perda de lugares da Ryanair e a descida de mercados, como o norte-americano, estão a ter impacto sobre o preço [da hotelaria], neste caso em baixa.
“O destino [açoriano] é muito sazonal. Há rotas que só tem no verão. Vão existir operações que vão garantir alguma almofada e amortizar [as perdas]. Vamos provavelmente perder no mercado nacional, e manter o mercado internacional”, perspetiva Andreia Pavão para o verão.
Mas quando chegar o inverno, refere, “teremos novamente muito constrangimento”, e alerta que o arquipélago está a perder muitas acessibilidades. A isto junta-se outros fatores como a subida no preço do combustível para os aviões, derivado do conflito no Médio Oriente, e também a subida no preço dos bilhetes aéreos.
Face a este cenário, Andreia Pavão defende que é preciso um fundo para desenvolvimento de rotas e um reforço nas verbas de promoção. “A Visit Azores [responsável pela promoção do destino] tem execução muito baixa do seu Orçamento em 2025”, refere. E no final fica a pergunta de um milhão de dólares: Quem vai ocupar o lugar vago deixado pela Ryanair?