Num contexto onde nada indica que as negociações entre o Irão e os Estados Unidos venham a ser retomadas – apesar dos esforços do Paquistão – a tensão nas fronteiras iranianas volta a subir até níveis que podem ser anteriores ao regresso ao conflito. Donald Trump anunciou um cessar-fogo sem prazo – que o presidente disse que violaria assim que visse necessidade disso – mas o Irão parece disposto a viver sem isso: apreendeu dois navios no Estreito de Ormuz esta quarta-feira. E reforçou o controlo sobre a via navegável depois de Trump ter cancelado os ataques.

Os Estados Unidos mantiveram o bloqueio naval ao comércio marítimo do Irão, e o presidente do parlamento iraniano e principal negociador, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou que um cessar-fogo total só faria sentido se o bloqueio fosse suspenso. Reabrir o estreito é impossível com uma “violação tão flagrante do cessar-fogo”, disse Qalibaf em uma publicação nas redes sociais – regressando a uma retórica que já tem pelo menos uma semana.

“Vocês não alcançaram os vossos objetivos por via da agressão militar e também não os alcançarão por meio de intimidação. O único caminho é reconhecer os direitos do povo iraniano”, escreveu.

A Guarda Revolucionária apreendeu pelo menos duas embarcações por violação de um qualquer normativo que eventualmente ninguém sabe qual seja e escoltou-as até a costa iraniana. Aquela entidade – que, dizem alguns, é quem verdadeiramente manda no país –recordou que qualquer perturbação da ordem e da segurança no estreito seria punida.

A Guarda Revolucionária adiantou ter apreendido o MSC Francesca, com bandeira do Panamá, e o Epaminondas, com bandeira da Libéria, por operarem sem as licenças necessárias e de adulterarem os seus sistemas de navegação. Um terceiro navio porta-contentores também com bandeira da Libéria foi alvejado, mas não sofreu danos e retomou a navegação, de acordo com fontes de segurança marítima.

Um favor

Trump afirmou nas redes sociais que os Estados Unidos concordaram com um pedido de mediadores paquistaneses “para suspender os nossos ataques ao Irão até que os seus líderes e representantes possam apresentar uma proposta unificada… e as discussões sejam concluídas, de uma forma ou de outra”. É também uma repetição da retórica da Casa Branca, segundo a qual aquilo que parece uma fraqueza é na realidade um sinal de firmeza.

Numa demonstração de desafio, o Irão exibiu alguns dos seus mísseis balísticos nas ruas de Teerão na noite de terça-feira, com imagens na TV estatal a mostrarem uma multidão em delírio.

O Paquistão ainda tentava esta quarta-feira reunir as partes para negociações. “Estávamos preparados para as negociações, o cenário estava pronto”. “Foi um revés que não esperávamos, porque os iranianos nunca se recusaram, estavam dispostos a participar e continuam dispostos”, disse uma fonte citada pela agência Reuters.