O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou o seu “apoio total e inequívoco à recandidatura” do primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, nas eleições legislativas do próximo dia 7 de junho. Pashinyan tem muito pouco a ganhar com este apoio – o histórico recente do suporte norte-americano a candidatos de países deste lado do Atlântico mostra que ele deve ser evitado – mas muito a perder. Sendo a Arménia uma antiga república soviética, a influência (ou a vontade de influência) da Rússia é um dos ‘custos de contexto’ mais presentes no país.

Tal como Trump, o presidente russo não se tem furtado a tentar influenciar a política arménia. E não apenas produzindo declarações públicas sobre o assunto: há poucos dias, telefonou a Pashinyan para debater a circunstância da permanência da Arménia no quadro da Comunidade Europeia Euroasiática – uma réplica da União Europeia que interessou apenas a Bielorrússia, Cazaquistão e Quirguistão (para além da Rússia e da Arménia). Putin deixou mais uma vez clara a incompatibilidade da permanência da Arménia se insistir em aderir à União Europeia. O som das armas não pode ter deixado de ouvir-se como música de fundo.

Do seu lado, a União Europeia – mais um ‘influencer’ em matéria de eleições externas ao seu território, apesar de se queixar dos outros ‘influencers’ – acena com as vantagens da adesão arménia ao bloco, que surge como uma das promessas mais audíveis do reportório de Pashinyan em termos de campanha eleitoral. Perdido (para já) o interesse da vizinha Geórgia, a União tenta mais uma vez alargar fronteiras para a Ásia, desta vez para um país (que foi o primeiro do mundo a aceitar o cristianismo como religião oficial) encastrado entre os mares Negro e Cáspio, sem ser banhado por nenhum deles.

O fantasma da Nagorno-Karabakh

Com a questão de Nagorno-Karabakh aparentemente resolvida, dizem os analistas mais simples, Trump recordou a assinatura, no ano passado, na Casa Branca, de um acordo de paz entre Pashinyan e o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, um dos motivos que vieram engordar a lista de guerras resolvidas por Trump para engrandecerem a sua vontade de ganhar o Nobel da Paz.

O confronto histórico entre a Arménia e o Azerbaijão no enclave não ficou sanado para sempre, como é claro para todos. Além disso, a Arménia contou sempre com o apoio da Rússia (e o Azerbaijão da Turquia), mas nada impede Moscovo de usar Nagorno-Karabakh para, uma vez confirmada a vitória de Pashinyan, atirar tensão e insegurança sobre o regime de Erevan. Mesmo que para isso tenha de mudar de lado, castigando o antigo aliado. Se isso acontecer, Trump não quererá com certeza voltar àquele ‘vespeiro’ e a União Europeia já mostrou a sua costumeira inoperância face ao enclave: todos os seus esforços para resolver a questão foram um fracasso total.

“Em breve, os Estados Unidos e a Arménia vão lançar em conjunto a Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais, que irá transformar o Sul do Cáucaso e ajudar as nossas extraordinárias empresas energéticas norte-americanas a obter acesso desde a Ásia Central até aos Estados Unidos”, declarou Trump. “Com a ajuda do Nikol, vamos levar os Estados Unidos, a Arménia, o Sul do Cáucaso e a Ásia Central a patamares nunca alcançados”, disse Trump. Afinal, talvez o presidente dos Estados Unidos queira voltar ao ‘vespeiro’.

Segundo as últimas sondagens, o partido Contrato Civil, de Nikol Pashinyan, lidera as intenções de voto com mais de 45% – o que, mesmo assim, indica um recuo assinalável, nomeadamente face aos 59% atingidos nas eleições de junho de 2021. O Aliança Arménia Forte, o bloco pró-russo liderado pelo magnata Samvel Karapetyan, segue em segundo, com cerca de 15%.

Kosovo também vai a votos para tentar ultrapassar a crise

A 7 de junho haverá também eleições (antecipadas) no Kosovo. A nova votação foi convocada pela presidente interina, Albulena Haxhiu (assumiu o cargo em abril passado), depois de o parlamento falhar consecutivamente a eleição de um novo chefe de Estado dentro do prazo constitucional, provocando a dissolução da assembleia. É a terceira vez em menos de um ano e meio que os kosovares tentam conseguir um governo estável. Nas sondagens, o partido LVV, liderado pelo primeiro-ministro Albin Kurti, vai à frente com enorme vantagem. Talvez volte às maiorias absolutas, situação que perdeu na sequência das eleições de fevereiro de 2025, onde teve apenas 41% dos votos. Apesar do resultado expressivo, o partido deixou de poder governar sozinho e foi incapaz de concluir uma aliança parlamentar.