
O setor agroalimentar europeu pode atingir uma marca inédita em 2030: pela primeira vez, a balança comercial pode ser negativa no final desta década. O alerta foi deixado por Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, no 8º Colóquio Hortofrutícola organizado pela Lusomorango e que teve lugar em Odemira esta sexta-feira.
Antes de chegar aos números europeus, este responsável fez uma análise de como tem trabalhado a sustentabilidade no Perímetro de Rega do Mira: “Não há qualquer dúvida de que estão a ser implementadas medidas para um crescimento responsável e sustentável no perímetro de rega do Mira, para melhorarmos a qualidade de vida do setor e de todos os setores que beneficiam com este ecossistema”.
O responsável recordou que “o crescimento dos custos de produção foi gigantesco nos últimos anos mas o setor agroalimentar deu uma lição porque nunca parou apesar de todas as contrariedades. Mantivemos e melhorámos a qualidade do produto, diria com preços acessíveis”.
No plano europeu, Gonçalo Santos Andrade destaca que o setor agroalimentar “tem tido um peso económico assinalável e uma evolução enorme nas trocas comerciais. A balança comercial é altamente positiva na UE, acima de 50 mil milhões de euros”. Mas deixou um alerta: “Se a tendência dos últimos dois anos, ao nível da balança comercial, em 2030 vamos ter uma balança comercial negativa pela primeira vez. Espero que na UE não percamos a liderança no setor agroalimentar, porque noutros setores já perdemos essa liderança”.
E nesse contexto, os recentes acordos comerciais devem ser acautelados: “Os acordos comerciais da UE são essenciais para manter o nível de trocas comerciais, mas todos têm que cumprir as mesmas regras de exigência na produção. O crescimento de importações de países terceiros com menos controlo na produção devem preocupar-nos. A segurança alimentar também é defesa. Têm que haver acordos robustos com EUA, China e Índia para não remarmos sozinhos num mundo onde a competitividade económica é gigantesca”.
Para o presidente da Portugal Fresh, “não podemos condenar o agroalimentar por ser responsável por 1% da emissão dos gases de estufa”. E deixou novo alerta: “A quantidade de fruta produzida na UE tem vindo a descer. Sabemos que a UE é fantástica a regular e a burocratizar mas lenta na forma como apoia as empresas”.
Portugal é o sétimo país na produção de frutas e legumes na UE e na Portugal Fresh acredita-se que “podemos crescer mais”. “Podemos aumentar a produção e para isso temos que ter reservas de água e temos que maximizar a capacidade de rega”, destacou.
Gonçalo Santos Andrade sublinhou que os pequenos frutos “têm vindo a crescer bastante em Portugal”. Os números revelados por um estudo da EY, referentes a 2025 corporizam a importância da fileira dos pequenos frutos em Portugal (que triplicou a produção em dez anos para 91.400 toneladas): um impacto económico de 1.037 milhões de euros, 34.369 postos de trabalho, 580 milhões de euros em produção e exportações que se aproximaram dos 398 milhões de euros, 629 milhões de euros em remunerações e 276 milhões de euros em receita fiscal. “Com investimento em água, habitação, educação, saúde e acessibilidades podemos crescer muito mais”, destaca, dando ênfase ao facto do agroalimentar representar 13,2% das exportações nacionais: 10.500 milhões de euros.