Antes de entrarmos no Palacete Gomes Freire para a 6ª edição da Lisbon by Design, que decorre de 26 a 31 de maio, verbalizamos o que ainda só é dito num sussurro: design colecionável. Soa pomposo, mas não é. O que significa, concretamente? Que se volta a enaltecer as relações de afeto com objetos, que a durabilidade é uma forma de sustentabilidade, que passar uma peça de design de geração em geração é celebrar a nobreza e a criatividade do saber-fazer. É o que a Lisbon by Design tem vindo a fazer e que, na edição de 2026, quer depurar ainda mais, estimulando o seu principal backbone, as colaborações.
O Palacete Gomes Freire será, uma vez mais, a montra de uma geração de criadores que explora a materialidade, a memória e a inovação, lado a lado com autores cuja prática tem moldado o panorama contemporâneo do design nacional. Também há novidades, como uma exposição coletiva que reúne mais de dez designers, cada um apresentando entre uma e três peças colecionáveis. Este espaço de experimentação assume-se como um laboratório criativo que não só preserva como reinterpreta a herança do design nacional.
Está dado o mote. Agora vamos ao tom da colaboração entre a Ferreira de Sá, uma das principais marcas portuguesas de tapeçaria de design exclusivo, há 80 anos a fazer história, e a Fuschini, uma jovem marca de mobiliário desenhado e produzido em Portugal, fundada por Vasco de Lima Mayer e Sara Oom de Sousa. Exemplo vivo do saber-fazer que liga tradição à inovação, a Ferreira de Sá respondeu “sim” ao convite da Fuschini para desenvolverem em conjunto a instalação com que se apresentam, pela primeira vez, na Lisbon by Design.
Durante a conversa com o JE, o tom de Rosana Sousa e Carlota Verde, diretoras criativas da Fuschini e Ferreira de Sá, era nitidamente entusiasta. “Nós queríamos não só enfatizar o mobiliário Fuschini, como também elevar e trabalhar toda a parte mais cenográfica. E fazia sentido que fosse o têxtil a complementar”, explica Rosana Sousa. “A Ferreira de Sá imediatamente veio à nossa mente. É uma marca que sempre valorizámos muito, por tudo aquilo que tem alcançado ao longo do tempo, e decidimos lançar o desafio.” Sorriso rasgado e palavra a Carlota Verde, que não hesita em dizer que o desafio foi bem acolhido, que estão envolvidas, dos dois lados, entre 40 a 50 pessoas, e que esta é uma oportunidade, também, “para a marca chegar a novos públicos.”
O objetivo era pensar o interior de uma forma integrada. Tapete, mobiliário e arquitetura como que em ‘osmose’. Não é um exagero. É a motivação das duas marcas. E se do lado da Fuschini, todo o mobiliário foi criado especificamente para a Lisbon by Design, do lado da Ferreira de Sá – e de acordo com a sugestão da Fuschini – a ideia foi selecionar “peças que já existem em catálogo e adaptá-las, produzindo-as propositadamente para este evento. Ou seja, fazendo peças customizadas para a Lisbon by Design”, explica Carlota antes de revelar, em primeira mão, que há uma que foi criada de raiz, “inclusive em termos técnicos, porque é uma peça que requer outras técnicas.”
Rosana confessa que está cheia de curiosidade de ver a peça, mas sabe que tudo tem o seu timing. Carlota deixa-nos vislumbrar um primeiro teste da trama que estão a usar para a peça, assim como as cores. Silêncio. E logo uma exclamação de Rosana. “Está fantástico!” Importa dizer que esta conversa foi presencial e virtual. Rosana e a escriba no ateliê da Fuschini, em Caxias, Carlota na sede da Ferreira de Sá, em Espinho. O ecrã de computador, porém, não arrefeceu minimamente o calor da conversa. Carlota, aliás, já explicava o que é isso de terem de usar outras técnicas. “Não é exatamente um tapete, é mais uma peça têxtil de um tecido tramado que adaptámos para este evento.” Rosana completa a explicação. “Como o Palacete [Gomes Freire] é muito iluminado, tem muitas janelas, muitas entradas de luz, a tapeçaria não seria só para a cenografia. Queríamos que fosse também um highlight para diferentes peças, sem impedir a entrada da luz.”
Sensibilidade e trabalho colaborativo, o que passa, também, por dar primazia a materiais e fornecedores locais. Reduz-se a pegada com a proximidade, mas não só. Também se evita o desperdício têxtil, pois “compramos apenas aquilo que consumimos”, frisa Carlota Verde. A sustentabilidade, logo o futuro, passa por aqui. Por pensar, também, na “durabilidade, pois é isso que faz com que um objeto, uma peça, seja sustentável. A ideia de adquirirmos algo que é para a vida, para ‘muitas vidas’, ao passarem de geração em geração”, sublinha Rosana Sousa. O ‘novo luxo’ é esse, criatividade-qualidade-durabilidade. Na verdade, sempre foi, mas agora faz mais sentido do que nunca.
Lisbon by Design | 26-31 maio | Ver programa em lisbonbydesign.com