Dez anos volvidos, a maior parte dos britânicos considera que o Brexit foi um erro e gostaria de reverter pelo menos parte das suas consequências, apontando a uma relação mais estreita entre os dois lados da Mancha. Com os EUA numa postura de animosidade, a preferência da população britânica recai mais sobre os europeus do que sobre os norte-americanos, isto numa altura em que a situação interna cai novamente na instabilidade.
Um estudo do Centro Europeu de Relações Externas (CEFR) indica que 66% dos inquiridos, cidadãos britânicos com direito de voto, considera que a saída do Reino Unido da UE em 2016 prejudicou alguma dimensão da vida no país, entre economia, reputação externa, oportunidades para os mais jovens ou a imigração, e três quartos quer mais integração com a UE e uma relação mais próxima.
O estudo, que se dividiu em quatro inquéritos, sinaliza que, mesmo entre os votantes a favor da saída do país da UE, 66% quer uma reaproximação contra apenas 15% que pretendem manter a atual distância. A livre circulação de bens e mercadorias seria um preço que 63% dos eleitores ouvidos por este estudo estariam dispostos a pagar atualmente por uma “relação comercial mais próxima com a UE”, ou seja, revertendo a decisão de 2016.
Na mesma linha, apenas 18% dos inquiridos considera os EUA um verdadeiro aliado, dado o historial recente de animosidade e declarações inflamadas do presidente Trump e da sua administração para Londres. Em sentido inverso, 45% vê a UE como um aliado e outros 32% como “um parceiro necessário”.
Ainda no que toca à questão da segurança, 72% dos inquiridos acredita que algum país europeu viria ao auxílio do Reino Unido em caso de uma invasão ou ataque externo contra apenas 35% que confia nos EUA. Quanto à formação de um exército comum, uma possibilidade recorrentemente oposta pelas fileiras mais à direita da realidade política britânica, agora 43% dos eleitores seria favorável à sua constituição, contra apenas 21% de oposição.
Mais, 65% dos inquiridos apoia a partilha de material militar ou inteligência com a Europa, “incluindo uma larga maioria de quem votou para ‘sair'”, lê-se no relatório. De referir ainda que metade das respostas indicava não querer mais compras de material militar dos EUA, uma inversão clara da aliança das últimas décadas.
Dado que o voto ocorreu há já uma década, boa parte da população votante atual não estava ainda qualificada para votar à altura, enquanto outra parte já faleceu. Olhando apenas para os eleitores atuais que não o eram em 2016, 70% votaria favoravelmente a um referendo quanto à adesão do país à UE, enquanto apenas 11% votariam para permanecer fora.
Outro sinal do consenso para que se vem inclinando a população britânica é que 57% dos inquiridos considera que foi um erro abandonar a UE, enquanto apenas 30% classifica a decisão como acertada.
Estas conclusões correlacionam-se com outros estudos recentes que apontam para o custo económico da saída do Reino Unido da UE, incluindo uma análise recente do Gabinete Nacional de Pesquisa Económica (NBER) dos EUA, que estima um impacto negativo de 6% a 8% no PIB britânico entre 2016 e 2025.
Perante estes sinais da população britânica, Michel Barnier, o representante máximo da UE nas negociações de saída dos britânicos do bloco, já sinalizou a abertura para receber novamente Londres.
“A saída foi uma escolha soberana; será também uma escolha soberana voltar a aderir quando assim entender”, afirmou esta segunda-feira num debate precisamente a propósito da década que agora se assinala da decisão britânica que chocou a política europeia.