Portugal mantém uma das redes de acesso a numerário mais abrangentes da Europa, com 95% da população com um ponto de acesso a menos de cinco quilómetros e 99% até dez quilómetros de um ponto. Mais, 93% da população tinha uma alternativa a menos de cinco quilómetros, um resultado consistente com o país com maior número de caixas automáticas por habitante, mas ainda assim os desafios persistem, sobretudo no nordeste do território.
O relatório do Banco de Portugal (BdP) referente à ‘Avaliação da cobertura da rede de pontos de acesso ao numerário em Portugal 2025’, divulgado esta segunda-feira, aponta para uma cobertura robusta, capilar e abrangente da rede que permite aos cidadãos acederem a numerário, uma possibilidade ainda vista como importante por 63% da população da zona euro e 57% dos portugueses.
E, apesar da perceção crescente que o acesso a numerário tem vindo a cair e a sua utilização também, os dados oferecem um contraponto: ainda que as operações com numerário tenham caído de 59% em 2024 para 52% no ano passado, em termos de volume, e de 42% para 39% em valor, o numerário continua a ser o meio de pagamento mais utilizado em todo espaço da moeda única.
No caso português, o acesso continua a ser abrangente. O país lidera no rácio de caixas automáticas por pessoa, com 14,6 mil, o que perfaz 80% dos quase 18 mil pontos; dos restantes, 2,7 mil correspondiam a agências bancárias com serviços de numerário e 550 a pontos de cash-in-shop (uma solução ainda predominantemente verificada nos centros mais densamente povoados e/ou com maior intensidade turística).
Não é, portanto, de estranhar que 95% da população tivesse acesso a ponto a menos de cinco quilómetros, com 98% da população coberta quando se aumenta a distância para dez quilómetros. E, ao contrário de anteriores estudos, as distâncias em 2025 foram calculadas com base nas ligações rodoviárias, por oposição à anterior metodologia que considerava as distâncias em linha reta.
De notar, contudo, que estes números não refletem ainda a atualização do INE quanto à população portuguesa, além de não incluir também os pontos associados ao projeto ‘Multibanco + Perto’. Este piloto, lançado recentemente pelo Ministério da Economia e Coesão Territorial em colaboração com o BdP, SIBS e a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE), almeja precisamente trazer pontos de acesso a numerário aos concelhos mais vulneráveis, onde a população se encontra mais isolada nesta ótica.
Precisamente com vista à identificação dos maiores desafios, salta à vista que a região do Nordeste Transmontano, sobretudo no distrito de Bragança, concentra as freguesias onde o acesso ao numerário é mais difícil. O relatório do BdP destaca Vinhais, Carrazeda de Ansiães e Torre de Moncorvo como os desafios mais prementes, mas há outras situações no próprio distrito.
A análise explica que define como desafios prioritários as situações em, que além de a freguesia não dispor de nenhum local de acesso, integra “células populacionais situadas a mais de 20 quilómetros por estrada da rede”. Segundo este critério, 85 freguesias são contabilizadas, com 41 no distrito de Bragança e 13 no de Vila Real.
Por outro lado, há situações de vulnerabilidade – uma designação usada para freguesias onde se verifique um ponto de acesso para 4.000 ou mais habitantes, para 150 quilómetros quadrados ou mais, ou que servisse em simultâneo pelo menos 1500 residentes e 50 quilómetros quadrados. Neste enquadramento foram identificadas 36 freguesias, sendo que Beja era o distrito com mais casos nestas condições, oito; seguem-se Santarém, com cinco, Castelo Branco, com quatro, e Évora, com três.
Apesar de ser uma rede globalmente “adequada”, estas dificuldades concentradas em termos territoriais obrigam a medidas, dada a importância de manter o acesso a numerário para a população, sobretudo a mais envelhecida, para quem os meios digitais são ainda de complexa utilização. Como tal, as respostas podem igualmente ser “geograficamente direcionadas”.
Além das iniciativas do sector privado, sobretudo via cash-in-shops, há políticas públicas por toda a Europa desenhadas para responder a este problema. Nesta mesma senda, o Governo lançou o ‘Multibanco + Perto’, que já serve 30 freguesias e se prepara para expandir para Mértola e a Guarda, detalha o Ministério da Economia.