Numa época em que a inovação ainda não estava contemplada nos orçamentos das empresas, nasceu uma das maiores revoluções silenciosas das estradas portuguesas, a Via Verde. Nos anos 80, a empresa enfrentava sérias dificuldades financeiras, tão sérias que investir em tecnologia de ponta parecia um luxo inalcançável. “Esteve à beira de fechar”, recorda José Braga, um dos fundadores da “invenção” que mudaria a fluidez do trânsito em Portugal.
As filas nas portagens especialmente em Carcavelos acumulavam-se criando um problema de tráfego para a empresa. Porém, a solução não passava por instalar mais cabinas nem contratar mais operadores. A proposta estava na aquisição de tecnologia dispendiosa. Muito cara.
Segundo recorda José Braga, o então presidente do conselho de administração, António Figueiredo Martins, foi implacável: “Não há dinheiro para comprar soluções externas. Sejam imaginativos”, disse na altura ao Núcleo de Investigação e Desenvolvimento Eletrónico da empresa. Só tiveram uma saída fazerem-se à estrada e procurar inspiração lá fora.
Em Itália, França e Espanha depararam-se com sistemas de cobrança eletrónica ainda rudimentares, baseados em modelos fechados e pouco flexíveis: “Contratos diretos com os clientes, pagamentos posteriores e, sobretudo, tecnologias que obrigavam quase à imobilização do veículo para leitura”, conta recordando cada detalhe.
A resposta surgiria mais a norte. Na Noruega, em cidades como Trondheim e Oslo, descobriram um sistema de controlo de acessos capaz de reconhecer veículos em movimento. “Uma tecnologia ainda incipiente, mas com potencial”, relembra. Foi esse o pontapé de saída. A partir daí, a equipa portuguesa adaptou, reinventou e integrou essa solução num sistema de portagens totalmente novo e ajustado à realidade nacional. Corria o ano de 1991.
A importância dos parceiros
No entanto, a inovação não se ficou apenas pelo aspeto técnico. “O verdadeiro salto ocorreu no modelo de negócio: com o apoio da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS), foi criado um sistema em que a transação ocorria num universo separado do sistema bancário, sendo a ligação à conta do utilizador apenas feita posteriormente. Um pormenor invisível para quem conduz, mas decisivo para garantir segurança, escala e simplicidade”, explica o antigo colaborador.
Desta combinação improvável nasceu a Via Verde, a primeira rede concessionada no mundo equipada com um sistema de cobrança em movimento, que colocou Portugal na linha da frente da inovação mundial em portagens eletrónicas. Para José Braga, a memória desse tempo não é apenas técnica. É emocional. É o orgulho de quem viu nascer uma solução feita de engenho e persistência.
O pequeno dispositivo colado ao vidro do carro veio revolucionar as filas de trânsito. Já não era necessário parar na portagem, pois a identificação dos veículos era feita apenas com ondas de rádio. Que golpe de magia teria Portugal inventado? A Via Verde comemora 35 anos a 24 de abril de 2026 e, se olhar para trás, verifica que esta é uma história de como o tempo se tornou o verdadeiro produto de uma empresa que começou por resolver problemas de trânsito e acabou por transformar a forma como milhões de pessoas se deslocam. A Via Verde evoluiu de um sistema de pagamento eletrónico para uma plataforma de mobilidade.
A parceria com a academia e com o Instituto de Telecomunicações foi também determinante para transformar o conceito em realidade. “Nunca fazemos nada sozinhos”, reconhece hoje Eduardo Ramos, CEO da Via Verde, sublinhando que a inovação nasce muitas vezes da intersecção entre empresas e academia. Foi essa combinação que permitiu transformar uma tecnologia num sistema capaz de concretizar uma transação sem contacto, algo que, na época, parecia quase futurista.
Quando o tempo é um ativo
O que começou como um instrumento de eficiência ganhou rapidamente outra dimensão. “Percebemos que as pessoas valorizam muito o tempo”, diz o CEO. Foi essa perceção que empurrou a Via Verde para fora da autoestrada. Literalmente. “As pessoas não gostam de estar paradas, não gostam de moedas, não gostam de perder tempo com coisas acessórias”, acrescenta Eduardo Ramos.
A empresa saiu da portagem e entrou nos parques de estacionamento. Saiu do carro e entrou no telemóvel. Saiu da estrada e conquistou a cidade. Não só em Portugal, mas também na Europa.
Ao longo das décadas foi alargando o seu território: primeiro o estacionamento coberto, depois os serviços drive-thru e mais tarde as soluções digitais que surgiram com a revolução dos smartphones. Com a massificação dos dispositivos móveis, a Via Verde deixou de ser apenas um “objeto físico” tornando-se numa interface digital — um ponto de contacto constante com o utilizador. “Quem conseguiu adaptar-se do negócio físico ao digital, mantendo essa ligação ao mundo real, teve uma transformação enorme — foi o nosso caso”, afirma Eduardo Ramos.
Hoje, a aplicação permite pagar o estacionamento sem moedas, carregar veículos elétricos, aceder a serviços urbanos e até prever a probabilidade de se conseguir lugar numa determinada zona. Trata-se de uma espécie de “arrumador digital à distância”, o Parking Buddy capaz de fornecer uma estimativa de lugares de estacionamento antes mesmo de o condutor chegar ao destino. A lista de ofertas inclui também o serviço de táxis.
Chegou ao topo e agora?
Se, há 35 anos o desafio era a fluidez da circulação rodoviária, hoje o utilizador tem mais opções de transporte e o parque automóvel continua a crescer, criando a necessidade de ajudar a melhorar a fluidez da mobilidade. A Via Verde tem aproveitado as oportunidades. Tal obrigou-a a criar múltiplas aplicações e a fechar parcerias. A mensagem é clara: a “aniversariante” quer posicionar-se como uma facilitadora da mobilidade urbana.
No entanto, o crescimento não se fez apenas dentro de portas. Tem cerca de 5,5 milhões de identificadores ativos — o equivalente a 3,8 milhões de clientes — e já expandiu para 15 países europeus. Nem sempre com o mesmo nome. Em mercados como França ou Países Baixos, opera através de marcas locais, numa estratégia que privilegia a proximidade com o consumidor. “São marcas muito identificáveis localmente. Talvez no futuro possamos pensar numa marca única, mas para já faz mais sentido esta ligação ao consumidor”, explica Eduardo Ramos.
A internacionalização teve também capítulos fora da Europa. No Brasil, ajudou a criar a Sem Parar atualmente Corpay e na Índia, esteve na origem da Ezeeway. Em ambos os casos, a tecnologia portuguesa lançou raízes que cresceram para lá da casa-mãe, mesmo após a saída estratégica desses mercados. “Fomos criando filhos pelo mundo”, diz Eduardo Ramos.
Com uma faturação estimada próxima dos 100 milhões de euros em 2025 e cerca de 200 colaboradores, a Via Verde é hoje uma empresa muito diferente. mas ainda assim, continua a lidar com o mesmo paradoxo: num mundo onde tudo acelera, as filas regressaram — não por falha da tecnologia, mas devido ao volume crescente de tráfego. A resposta, na opinião do CEO, passará por sistemas mais inteligentes. “Há cidades que já estão a considerar a aplicação de preços dinâmicos, ou seja, pagar mais em horas de ponta e menos fora delas, para gerir melhor o fluxo.”
Há também um outro fator crítico: o estacionamento. Grande parte dos congestionamentos urbanos resulta simplesmente de carros à procura de lugar. Reduzir essa incerteza, através de dados e previsões, é uma das frentes onde a empresa aposta. “A procura de estacionamento continua a ser responsável por muito congestionamento nas cidades”, sublinha.
E o futuro… Será verde?
A pressão ambiental e a regulamentação europeia apontam para um futuro com menos emissões, maior controlo e novas formas de mobilidade. “Haverá maior disciplina na circulação de veículos com emissões de carbono, isso é inevitável”, afirma o CEO. A Via Verde tem vindo a posicionar-se nesse cenário oferecendo soluções ligadas à mobilidade elétrica e aos transportes urbanos, incluindo trotinetes e integração com sistemas públicos.
No limite, o próprio conceito de condução poderá mudar. “Vamos ter menos preocupação com conduzir e mais tempo para outras coisas”, antecipa. A condução autónoma, acredita, poderá tornar o tráfego mais fluido precisamente por eliminar falhas humanas. “As máquinas não cometem os mesmos erros que nós — e isso pode reduzir o congestionamento.”
Até cenários que hoje parecem distantes começam a entrar na conversa. “Carros voadores? Provavelmente vão existir”, diz o CEO, sem hesitar. Pode parecer futurista, mas a lógica mantém-se: onde houver mobilidade, haverá necessidade de organização, pagamento e fluidez. Trinta e cinco anos depois, a questão mantém-se: qual é o próximo problema que a Via Verde terá de resolver?