Esta quinta-feira, dia 30 de abril de 2026, o Novobanco muda de mãos. O Jornal Económico sabe que o francês Groupe BPCE paga 6,69 mil milhões de euros (6.692.093.850 euros) por 100% do Novobanco, tal como, aliás, tinha sido noticiado na semana passada. Trata-se de um valor ligeiramente acima do inicialmente previsto, que era de 6,4 mil milhões, refletindo um ajuste face aos mecanismos de avaliação previstos no contrato.
O Fundo de Resolução recebe, pela venda das ações representativas de 13,54% do capital, um total de 906,1 milhões de euros (906.109.507 euros). Já a Entidade do Tesouro e Finanças (antiga Direção-Geral do Tesouro e Finanças) recebe 766,9 milhões de euros (766.913.955 euros) pelos seus 11,46%.
No conjunto, as entidades públicas recebem 1.673 milhões de euros.
Investimento da Lone Star no Novobanco rendeu 20,21% ao ano
O banco liderado por Mark Bourke apresenta também, esta quinta-feira, os resultados do primeiro trimestre e, segundo apurou o Jornal Económico, serão superiores aos do primeiro trimestre do ano passado, que ascenderam a 177,2 milhões de euros. Estes são os últimos números do banco sob liderança do fundo de private equity Lone Star, que, em 2017, investiu mil milhões de euros para ficar com 75% do banco português.
Pouco mais de nove anos depois de ter adquirido o banco que nasceu da resolução do Banco Espírito Santo, a Lone Star vende 75% do Novobanco ao Groupe BPCE por mais de 5 mil milhões de euros (5.019.070.388 euros), ou seja, com uma mais-valia de cerca de 4 mil milhões de euros, o que representa uma rentabilidade anual composta de 20,21%.
Ontem, quarta-feira, decorreu a Assembleia-Geral preparatória da conclusão da venda.
Esta AG foi, na verdade, a segunda assembleia geral de 2026 — houve uma primeira a 23 de março, que aprovou as contas de 2025, ano em que o banco registou um lucro de 828 milhões de euros e definiu dividendos previstos — de cerca de 500 milhões — para o futuro acionista, o grupo BPCE.
A AG de 29 de abril teve como pontos centrais a eleição de novos membros para o conselho geral e de supervisão, a nomeação do novo auditor e a alteração dos estatutos do banco. As deliberações estavam subordinadas à conclusão do processo de venda das ações ao BPCE, que ocorre hoje.
Mais concretamente, estão de saída três membros do conselho de supervisão nomeados pela Lone Star: Mark Andrew Coker e Evgeniy Kazarez, que serão substituídos por três nomes ligados ao BPCE.
Também de saída está Benjamin Dickgiesser, o atual Chief Financial Officer (CFO) e membro do Conselho de Administração Executivo, nomeado em 2023, tal como noticiado em primeira mão pelo Jornal Económico.
Para o cargo de CFO, o Banque Populaire Caisse d’Epargne (BPCE) irá nomear uma mulher.
Na AG desta quarta-feira, ficou ainda aprovada a alteração dos estatutos, nomeadamente para facilitar decisões do novo acionista. Será também escolhido um novo auditor, de forma a evitar conflitos de interesse com a EY, que estava em funções e cujo mandato terminaria em 2027.
Novobanco vendido 12 anos depois da resolução do BES
A venda do Novobanco ao Grupo BPCE é o corolário de um longo processo iniciado com a resolução do Banco Espírito Santo (BES), em 2014, confirmando o cumprimento das finalidades da atuação das autoridades nacionais face à falência do banco.
Trata-se do desfecho da saga do maior escândalo financeiro português de sempre, que envolveu a maior família de banqueiros portuguesa e teve repercussões internacionais.
O Ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, já afirmou que “encerramos este ciclo com a convicção de que Portugal volta a dar um passo relevante na sua história”.
O Novobanco foi criado a 3 de agosto de 2014 para ficar com a parte “boa” dos ativos do BES, no contexto da aplicação de uma medida de resolução pelo Banco de Portugal (BdP), perante a insolvência do banco historicamente liderado por Ricardo Salgado. A criação do Novobanco foi anunciada pelo então Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, no contexto da implementação do mecanismo de resolução bancária.
Três dias antes da resolução, o Banco Central Europeu (BCE) suspendeu o acesso do BES às linhas normais de crédito, exigindo o pagamento de 10 mil milhões de euros, o que tornou inevitável o recurso à ELA (Emergency Liquidity Assistance) e a consequente intervenção. O BdP, no âmbito do seu papel de supervisão e de manutenção da estabilidade financeira, injetou liquidez (ELA) no BES para evitar o colapso imediato.
A incapacidade de o BES devolver essa liquidez de emergência, combinada com o buraco financeiro, forçou o Banco de Portugal a dividir o banco em dois, criando o Novobanco (“banco bom”) e deixando os ativos problemáticos e a dívida (incluindo a ELA) no “banco mau”.
A 30 de julho de 2014, o BES, então liderado por Vítor Bento, apresentou um prejuízo de 3,57 mil milhões de euros relativo ao primeiro semestre de 2014. Nesse período, foi detetado o esquema de circularização de obrigações emitidas pelo BES, envolvendo a Eurofin. Tratava-se de um circuito em que as mais-valias eram transferidas para uma sociedade do GES e as correspondentes menos-valias para o BES, concretizadas no momento da recompra desses títulos, adquiridos pelo banco por um valor muito superior ao registado no balanço e antes do vencimento da dívida.
A constituição de provisões para fazer face à exposição a empresas do Grupo Espírito Santo, o impacto da exposição ao BESA e o esquema Eurofin explicam a maioria das imparidades e contingências registadas no primeiro semestre de 2014, que totalizaram 4.253,5 milhões de euros. Foram estas imparidades que conduziram o BES à situação de descapitalização.
Com isto, o banco apresentou um rácio de solidez financeira abaixo do mínimo exigido pelo Banco de Portugal, apesar do aumento de capital de 1.045 milhões de euros realizado em maio, ainda sob liderança de Ricardo Salgado.
Por isso, às 22h45 de domingo, 3 de agosto de 2014, o então Governador anunciou que “o Banco de Portugal deliberou aplicar ao Banco Espírito Santo, S.A., uma medida de resolução”. Acrescentou que “a generalidade da atividade e do património do BES é transferida para um banco novo denominado Novobanco, devidamente capitalizado e expurgado de ativos problemáticos”.
Mais tarde, verificou-se que essa expurga não tinha sido suficiente, havendo necessidade de retirar mais ativos problemáticos. Isso explica o mecanismo de capitalização contingente (de 3,89 mil milhões de euros) a cargo do Fundo de Resolução nacional, criado para viabilizar a venda do Novobanco à Lone Star, em outubro de 2017.
Pelo caminho, houve uma tentativa de venda falhada e a necessidade de recapitalização do banco, com a retransmissão, em dezembro de 2015, de cinco séries de obrigações seniores (com subscrição mínima de 100 mil euros), detidas por fundos institucionais — entre os quais a BlackRock e a Pimco — para o BES (banco mau).